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Família Consolata 3

Com as portas abertas: todo o fascínio da Missão

São José Allamano concebeu um Instituto Missionário exatamente para alcançar, chegar àqueles que nunca tinham escutado falar de Jesus Cristo. E esta é a situação, hoje, do Uzbequistão onde a “evangelização” por enquanto é feita simplesmente vivendo, escutando e aprendendo.

Por Redação da revista Andare alle Genti

Uma comunidade de mulheres, todas vindas de países e culturas diversas: uma realidade difícil de compreender. Mas depois estão ali os pequenos gestos, os comportamentos da vida cotidiana, aqueles que permitem fazer-nos conhecidos e reconhecidos. Um primeiro ano de análise e “experiência” antes de começar a encaminhar qualquer proposta.

Até o mês de novembro de 2025 são três as Missionárias da Consolata presentes na cidade de Urgench, 1000 km a oeste da capital Tashkent. Mesmo estando com quatro horas de diferença em relação ao nosso fuso horário (Itália), as irmãs se disponibilizam a dialogar conosco e marcamos a entrevista no WhatsApp.

A conversa é com a irmã Yudith Kikoti, tanzaniana, a “veterana” do grupo. Ela traz consigo uma longa experiência missionária vivida na Colômbia. Hoje fala o russo. É com ela que conversamos. 

A Direção Geral escolheu o Uzbequistão para a abertura de uma nova Missão. Foi uma escolha justa? Por que?

Quando passou a pandemia da Covid-19, após a estabilização da Comunidade de Missionárias da Consolata no Cazaquistão e a progressiva complicação do processo para obter o visto de permanência no país, nós como Missionárias da Consolata procurávamos a possibilidade de uma nova presença na Ásia Central. Neste período, Monsenhor Jersy Maculewicz nos fez o convite para abrir uma comunidade no Uzbequistão. Em outubro de 2022 duas de nossas irmãs visitaram o país, para um primeiro conhecimento da realidade e recolher as informações mais importantes. No ano sucessivo a Direção Geral e o Capítulo Geral estudaram a situação e abrindo-se ao discernimento, encontraram uma perfeita correspondência ao nosso carisma, isto é, o Anúncio do Evangelho aos não cristãos.

Você, pessoalmente, como se sente Missionária neste ambiente?

Aqui estamos imersas em uma realidade com forte minoria cristã, e a fé ainda é jovem, como uma pequena planta que necessita muito cuidado. Esta é a nossa vocação específica. O encontro entre nós e a população traz seus frutos, mas depende de como nos apresentamos: quando a fé é assim frágil se você se apresenta de forma negativa já fechou a porta. Aqui em nossa Igreja deixamos a porta aberta, e existe muita curiosidade, e nós acreditamos que esta curiosidade seja de verdade uma motivação. Colocamos nossa esperança nestas atitudes de acolhimento, porque aqui não existe catequese, e você pode somente responder às perguntas: “o que é a Igreja Católica, o que faz...?” E depois manter a igreja aberta, deixar ver o crucifixo; eu creio que um dia Jesus tocará o coração das pessoas e as convidará a voltar. Mas nós devemos ter o cuidado de deixar as nossas portas abertas, a exterior e a interior. 

A qual coisa vocês dão mais atenção para ter cuidado desta fé assim tão “delicada”?

“Deixar a porta aberta” significa escutar a todos, e responder como podemos. Eles perguntam-nos: “Vocês têm filhos? Não. Têm marido? Não. Trabalham? Não. E por que estão aqui? Para estar com vocês, para os conhecer, para viver a nossa fé com vocês”.  Também se você não é católico ou cristão, nós o escutamos, se você tem necessidade de ser escutado; o mesmo fazemos com os doentes. Somos todos seres humanos e temos necessidade de nos encontrarmos. Acrescento: aqui fazemos mais atenção à humanidade; não às religiões, porque não existe diálogo inter-religioso, cada um vive a própria fé. Um outro aspecto é que nós nos apresentamos assim como somos, uma comunidade intercultural pois somos originárias de diversos países. A diversidade pode ser vivida juntos, e também as religiões podem viver juntas. Eu te escuto não porque você é cristão, mas porque você está presente a mim. Isto desmonta a armadura da identidade e da religião. Somos todos irmãos e irmãs, esta é a essência da mensagem, independentemente da origem ou da religião. Explico: não queremos acentuar a diversidade, e nós falamos assim aos nossos amigos cristãos e os convidamos a deixar que qualquer um possa entrar qualquer um que o queira, e saia quem quiser, uma forma de atuar que deixa também os muçulmanos entrarem e se sentarem em nossos bancos.

Nós fazemos também atenção para não ser motivo de obstáculo para as famílias. Por exemplo, no dia dos mortos queríamos ir para uma visita e oração no cemitério. A senhora cristã com a qual tínhamos nos colocado de acordo nos sugeriu: “Hoje não, haverá muita gente, não se pode ir. É melhor escolher um outro dia, quando seremos só nós”. Aqui não há liberdade como é praticada em outras partes do mundo. 

Também os jovens em nossa igreja... de origem uzbek existe apenas uma. Os pais antes a acompanhavam, mas hoje não vêm mais. Ela continua, mas é a única. As outras pessoas têm mais de 65 anos. Os jovens têm ainda mais medo do olhar e do julgamento dos outros. 

Então como se pode anunciar Cristo em Urgench?

Eu diria com o acolhimento. Aqui ninguém vai te pedir sobre Jesus, portanto não devemos nem falar, nem pregar, nem fazer catequese, porém, a acolhida de qualquer um que possa vir até você e fazer perguntas de qualquer tipo, não só religiosas, isto podemos e devemos fazer para este povo que nos hospeda. Desta acolhida pode acontecer que se alguém tem algum interesse nos pergunte: “por que vocês vivem esta vida?”

Deixamos o portão aberto de propósito para que as pessoas possam vir, qualquer que seja o motivo que as impulsionam a entrar por aquela porta. Existem tantos pequenos sinais de busca, existe espírito de oração que podemos notar para além de uma expressão de curiosidade. 

No início de nossa presença aqui, não sabíamos qual caminho escolher. Depois de alguns meses começamos a permanecer na Igreja em adoração após a Santa Missa da manhã, três vezes por semana. Desde que começamos esta prática, cada dia aparecem pessoas que nos vêm pedir alguma coisa. Um senhor nos disse: “Eu passava aqui sempre e o portão estava sempre fechado. Eu quero ser cristão, o que devo fazer? Eu não posso professar minha fé em Jesus agora.” Nós começamos a percorrer com ele o caminho do primeiro anúncio do Evangelho. No início ele entrava na Igreja, ficava sentado, observava e depois ia embora. Somente após algumas vezes deste processo nos falou e não quis que a família soubesse. Há também algumas senhoras idosas que tinham deixado a igreja e agora começam a retornar. Vão e vêm. O grupo dos jovens se dispersou, como ovelhas sem pastor. 

Os nossos cristãos são casados com russos, polacos, ucranianos e entre eles não há uzbekis nativos. Há também muitos da Turquia. Todos eles participam das nossas celebrações livremente, os uzbeques ao contrário vêm escondidos. Nós estamos tomando um ano de tempo para observar e escutar, com os nossos sentidos interiores; depois poderemos começar a propor algumas iniciativas, a fazer alguma coisa... para fazer com que o Evangelho ultrapasse os nossos portões.

As poucas Igrejas aqui no Uzbequistão têm muito poucos participantes mas é certeza que entre nós existem cristãos, também se não se tornam visíveis. A esperança existe, mesmo se aqui na área rural é mais difícil do que na cidade. 

Perguntamos às irmãs mais jovens do grupo: “Como será para vocês este Natal que está próximo, o primeiro no Uzbequistão?” A resposta veio quase em uníssono.

Para irmã Immaculate, ugandesa, chegada da Libéria, “o Natal será a encarnação que somos chamadas a viver aqui hoje: não será o Natal que esperávamos e que podemos imaginar, mas terá o verdadeiro significado do mistério de Deus conosco. Quando Jesus nasceu, ninguém sabia nada. Esta realidade me ajudará a apreciar ainda mais Jesus que se faz homem entre aqueles que não o reconhecem: também aqui não O conhecem. Para mim é muito verdadeiro: nasce para nós, no meio de nós, mas não o reconhecemos. O jogo está inteiro aqui.” Para irmã Andrea, brasileira, em sua primeiríssima destinação missionária, este Natal tem o sabor de uma verdadeiro e real  renascimento. “Não é o Natal que é novo, nova aqui sou eu!”

Texto publicado na revista Andare alle Genti, dezembro de 2025. Tradução: Benildes Clara Capellotto, MC.

Capa da Edição

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