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Especial

São José: a paternidade que nasce do cuidad

São José é celebrado pela Igreja Católica no dia 19 de março. Conhece o coração de Deus não por teorias, mas por convivência. Viveu com Deus na intimidade de uma casa. 

Por Maurício Guevara

Há figuras no Evangelho que falam muito. E há outras que dizem tudo sem pronunciar uma única palavra. São José pertence a esta segunda categoria. 

Ele é como uma montanha silenciosa que sustenta a paisagem sem chamar atenção. Não ocupa o centro da cena, mas sem ele a história da salvação teria ficado exposta às tempestades do vento, frágil, vulnerável. Deus confiou-lhe o que tinha de mais precioso: Maria e o Menino. E José respondeu não com discursos, mas com cuidado. Talvez seja aqui que encontramos uma das lições mais profundas da sua vida. 

José não é o pai biológico de Jesus. O Evangelho não esconde isso. Pelo contrário, faz questão de nos lembrar que a vida de Jesus nasce do sopro de Deus. Mas justamente aí se revela algo extraordinário: José aceita amar um filho que não nasceu do seu sangue. E isso revela o que talvez seja o segredo mais belo da paternidade. 

A paternidade não nasce apenas da biologia. A paternidade nasce do cuidado. Ser pai é proteger, sustentar e permanecer. 

São José, pai adotivo, gera Jesus não pela carne, mas pela presença. Gera-o pelo trabalho silencioso das mãos, pela proteção nas noites inquietas, pelas decisões difíceis tomadas para salvar aquela pequena família. Ele gera cuidado; e o cuidado, quando é fiel, também gera vida. 

Talvez por isso a Igreja sempre tenha olhado para ele como um grande intercessor. Porque são José conhece o coração de Deus não por teorias, mas por convivência. Viveu com Deus na intimidade de uma casa. Preparou o pão que Jesus comeu. Protegeu o sono do Filho de Deus. Caminhou com Ele pelas ruas poeirentas de Nazaré. Quem viveu tão perto de Deus sabe compreender também as nossas fragilidades. 

São José intercede como um pai: sem pressa, sem ruído, com aquela confiança serena de quem sabe que Deus trabalha no silêncio. Não é por acaso que São José Allamano, com a intuição espiritual de um verdadeiro pai missionário, quis colocar o Instituto das Missões Consolata sob a proteção de São José Operário. Allamano reconhecia em São José um modelo profundo para a vida missionária: uma santidade feita de pequenas coisas, de fidelidade cotidiana, de amor que se prova nos gestos simples.

Na Bíblia, São José é chamado “homem justo”, ele não pregou sermões nem fez grandes discursos, mas a sua simplicidade de vida e seu silêncio bíblico, inspirou muitos livros; ele não fundou comunidades, mas são muitas as congregações religiosas e paróquias no mundo que foram fundadas sob o seu nome; ele não percorreu o mundo anunciando o Evangelho, mas ensinou algo essencial para toda missão: como cuidar da presença de Deus no meio da vida cotidiana. 

São José nos lembra que a Missão não começa no barulho, mas na confiança. E talvez hoje, num mundo que muitas vezes confunde paternidade com posse, continua a nos ensinar algo decisivo: pai é aquele que gera cuidado.

Quem protege, gera. Quem acompanha, gera. Quem ama com fidelidade, gera vida. Por isso a Igreja sempre olhou para São José como grande intercessor e guardião. Ele é o homem que sabe cuidar do que não lhe pertence, porque tudo pertence a Deus. A sua autoridade nasce do amor, não do domínio, e a sua missão nasce da arte de criar o espaço do cuidado onde a vida pode florescer. 

Mauricio Guevara, imc, é reitor do Seminário Teológico Internacional João Batista Bísio, São Paulo, SP.

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