Um em Cristo, unidos na Missão
Neste mês de outubro celebramos o 100º Dia Mundial das Missões. A Campanha Missionária, articulada pelas Pontifícias Obras Missionárias (POM) e pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), propõe como tema “Um em Cristo, unidos na Missão” e como lema “Para que o mundo creia”. (Jo 17,21) A Missão, assim, não pertence somente a alguns. É responsabilidade de todo o Povo de Deus.
A fé cristã não se realiza apenas em palavras, conceitos ou discursos. Ela ganha sentido quando se encarna na vida, nas relações e nas escolhas concretas de cada pessoa e comunidade. Desde as páginas do Êxodo, a tradição bíblica recorda que a fidelidade a Deus está profundamente ligada à maneira como tratamos os mais vulneráveis: o estrangeiro, o órfão, a viúva e o pobre. A fé, portanto, não pode conviver com a indiferença. Ela nos coloca em movimento.
É nesse horizonte que esta edição da Revista Missões reúne diferentes experiências e testemunhos que, embora aconteçam em contextos distintos, têm algo em comum: mostram uma Igreja que procura estar próxima das pessoas, dos povos e dos territórios, reconhecendo que a Missão nasce do encontro e se concretiza no serviço.
O 5º Congresso Vocacional do Brasil, realizado em Aparecida, ao refletir sobre o tema “Comunidades Vocacionais: Encontro, Testemunho e Missão”, recorda que toda vocação precisa de uma comunidade que acolha, acompanhe e ajude a discernir. O chamado não é vivido de maneira isolada. Ele nasce do encontro com Cristo, amadurece na comunidade e se expressa no serviço.
Essa compreensão amplia o próprio sentido da vocação. Toda a comunidade cristã é chamada a reconhecer os dons presentes em seus membros e a favorecer caminhos para que cada pessoa descubra como colocar a própria vida a serviço do Evangelho.
A missão se manifesta de muitas formas. Ela está na disponibilidade de leigos e leigas que assumem o compromisso missionário, na presença de jovens que encontram na comunidade um espaço de fé e esperança, no acompanhamento de crianças e famílias, na vida consagrada e no testemunho daqueles que atravessam fronteiras para servir.
O II Encontro Internacional dos Leigos Missionários da Consolata, realizado em Roma e Turim, expressa justamente essa consciência de que o carisma missionário é partilhado e pode alcançar novos espaços por meio da participação dos leigos.
Também os jovens revelam que a busca por sentido continua presente em nosso tempo. Experiências como o Encontro de Jovens com Cristo (EJC), realizado em Japeri, na Baixada Fluminense, mostram comunidades que procuram criar espaços de acolhida, convivência e encontro com Cristo.
Na iniciação à vida cristã, por sua vez, o contato com diferentes culturas ajuda crianças e comunidades a compreenderem que o Evangelho não destrói a riqueza dos povos. Ao contrário, quando vivido com respeito, pode dialogar com culturas, histórias e símbolos diversos. O conhecimento do Baobá, por exemplo, torna-se também uma oportunidade para descobrir a riqueza de uma tradição africana e perceber como a fé pode crescer quando aprende a respeitar e valorizar a diversidade.
A missão também se faz distante de nossos olhos. Na Guiné-Bissau, a presença da Missionária da Consolata, Noeli Bueno, junto à população, especialmente nas áreas da saúde, educação e acompanhamento de crianças com deficiência na casa Bambaran, testemunha uma missão que se constrói no cotidiano, com presença perseverante e cuidado.
Mas, uma fé encarnada também precisa olhar para as feridas de nossas cidades.
São Paulo, uma das maiores metrópoles do mundo, é também território de encontro de diferentes povos. Venezuelanos, haitianos, angolanos, bolivianos, cubanos, afegãos e tantos outros imigrantes fazem parte da vida cotidiana da cidade. Eles trabalham, estudam, constituem famílias, participam das comunidades e ajudam a construir a sociedade.
Entretanto, ainda existem situações em que o migrante é visto apenas pela sua capacidade de trabalhar. A experiência da Casa do Migrante e do Serviço Pastoral do Migrante revela os desafios enfrentados por quem chega ao país em busca de oportunidades e encontra dificuldades para acessar direitos, reconhecer sua formação profissional e viver plenamente sua cidadania.
A frase “querem trabalhadores, mas não querem cidadãos” sintetiza uma realidade que precisa ser enfrentada. Acolher não significa apenas oferecer ajuda emergencial. Significa reconhecer dignidade, direitos, capacidades e participação social.
Para a comunidade cristã, esse compromisso encontra fundamento no próprio Evangelho: acolher o estrangeiro é reconhecer nele um irmão. A defesa da dignidade humana passa também pela construção de políticas públicas capazes de garantir igualdade de oportunidades, acesso a direitos e proteção diante de situações de exploração e trabalho degradante.
A mesma lógica nos conduz à questão ecológica. Não existe promoção humana verdadeira quando a natureza é destruída. A crise ambiental atinge de maneira especialmente forte as populações mais vulneráveis, que muitas vezes são as primeiras a sofrer com a falta de água, as mudanças climáticas, a degradação dos territórios e a insegurança alimentar.
A inspiração da Laudato Si’ continua atual ao nos recordar que tudo está interligado. O modo como produzimos, consumimos e descartamos tem consequências sociais e ambientais. Por isso, a conversão ecológica não pode ser reduzida a pequenas atitudes individuais, embora elas sejam importantes. É necessário também questionar modelos econômicos e culturais que transformam pessoas e natureza em instrumentos de produção e consumo.
O Tempo da Criação, celebrado neste período sob a inspiração da Água Viva, coloca diante de nós uma realidade fundamental: onde existe água, existe possibilidade de vida. A experiência de poços artesianos comunitários abastecidos por energia solar em regiões áridas de Isiolo, no Quênia, mostra de maneira concreta como o acesso à água pode transformar comunidades.Cuidar da água é cuidar das pessoas. Defender os territórios é defender vidas. Promover uma economia que respeite os limites da Casa Comum é também anunciar uma nova maneira de viver.
É nesse caminho que se insere a proposta da Economia de Francisco e Clara, que busca colocar a vida, a dignidade humana e o cuidado com a criação no centro das relações econômicas.
Talvez um dos maiores desafios da Missão hoje seja justamente aprender a escutar.
Em um mundo marcado pela velocidade, pelo excesso de informações e por transformações culturais profundas, o missionário é chamado a desacelerar para encontrar o outro. Uma sabedoria compartilhada por integrantes do povo murui-muinane, da Amazônia, expressa essa atitude por meio de três verbos simples e profundos: sentar, escutar e observar.
Essa pedagogia também nos ajuda a compreender que evangelizar não significa simplesmente chegar a um lugar levando respostas prontas. O missionário entra em uma realidade na qual Deus já está presente e, por isso, precisa aprender a reconhecer essa presença.
Voltar às fontes significa também recuperar essa disposição para o encontro. Significa redescobrir o carisma, aprofundar a espiritualidade e renovar o compromisso com a missão. É o que experimentam religiosos e religiosas em processos de formação contínua, quando são convidados a olhar novamente para a própria vocação, para a realidade e para o caminho que ainda precisa ser percorrido.
As experiências reunidas nesta edição apontam para uma mesma direção. A Missão não acontece apenas em lugares distantes. Ela está nas comunidades, nas periferias urbanas, entre os povos indígenas, junto aos migrantes, nas escolas, nas famílias, nas paróquias, nos espaços de formação e onde quer que a vida esteja ameaçada ou necessitada de cuidado.
Vocação, justiça social, acolhida dos migrantes e cuidado com a Casa Comum não são temas separados. Eles fazem parte de uma mesma compreensão da missão: seguir Cristo significa colocar a vida a serviço da vida.
Que esta edição nos ajude a olhar para a realidade com mais atenção, a escutar antes de julgar, a acolher antes de excluir e a agir diante daquilo que ameaça a dignidade humana e a criação.Em um mundo que tantas vezes alimenta a indiferença, somos chamados a testemunhar outra possibilidade. Uma Igreja sinodal, missionária, profética e samaritana, capaz de transformar a oração em compromisso, a fé em serviço e a esperança em presença.
Porque uma fé verdadeiramente encarnada não permanece distante da realidade. Ela se aproxima, escuta, consola e transforma. Boa leitura!