Chuseok: gratidão, família e memória na Coreia católica
Celebração tradicional na Coreia está ligada à colheita de outono e gratidão pelos frutos da terra.
Há momentos em que uma cultura revela, de maneira particularmente profunda, aquilo que considera essencial. Na Coreia, um desses momentos é o Chuseok, uma das celebrações tradicionais mais importantes do país. Celebrado no décimo quinto dia do oitavo mês do calendário lunar, o Chuseok está ligado à colheita do outono, à gratidão pelos frutos da terra, ao encontro da família e à memória dos antepassados.
Em 2026, o Chuseok foi celebrado no dia 25 de setembro. Para os coreanos, porém, esta celebração não se reduz a um único dia. É um período em que muitas famílias viajam para reencontrar os seus familiares, visitam os túmulos dos antepassados, preparam alimentos tradicionais e procuram viver um tempo de comunhão familiar.
Charye
Entre os costumes tradicionais está o charye, uma cerimônia familiar de memória e respeito pelos antepassados, na qual são preparados e colocados alimentos como arroz, frutas, carnes, legumes e outros pratos tradicionais. É também comum visitar e cuidar dos túmulos dos familiares falecidos. Entre os alimentos mais característicos encontra-se o songpyeon, um pequeno bolo de arroz preparado especialmente para esta ocasião.
Durante o Chuseok, é comum ouvir expressões como “즐거운 한가위 되세요!”, que significa “Tenha um feliz Chuseok!”, ou “풍성한 한가위 되세요!”, um desejo de um Chuseok abundante, feliz e cheio de bênçãos. São expressões simples, mas que revelam o espírito desta celebração: desejar ao outro abundância, paz, felicidade e harmonia familiar.
Igreja Católica
Para a Igreja Católica na Coreia, o Chuseok oferece uma oportunidade particularmente rica de diálogo entre a fé e a cultura. A Igreja não precisa rejeitar aquilo que existe de verdadeiro e belo numa tradição cultural. Pelo contrário, pode discernir os seus valores, purificá-los quando necessário e conduzi-los à sua plenitude à luz do Evangelho.
Neste contexto, a memória dos antepassados adquire um significado especial. A fé católica não transforma os antepassados em objeto de culto, pois a adoração pertence somente a Deus.
Entretanto, recordar aqueles que nos precederam, agradecer pela vida que recebemos através deles e rezar pelos familiares falecidos são expressões profundamente compatíveis com a fé cristã. A memória torna-se, assim, uma forma de gratidão e de oração.
Os frutos da terra diante do altar
Durante a missa de Chuseok, é comum encontrar junto ao altar, ou em um espaço próximo a ele, frutos da estação, arroz recém-colhido e outros produtos da terra. Maçãs, peras, uvas, caquis, grãos e outros frutos do outono tornam-se sinais visíveis da colheita e da abundância recebida.
Não se trata, porém, de alimentos oferecidos aos antepassados, como acontece tradicionalmente no charye. Na celebração católica, esses frutos são apresentados como sinais de gratidão a Deus, reconhecendo que a terra, a chuva, o sol, o trabalho humano e os frutos da criação são, em última instância, dons recebidos do Criador.
Esses elementos adquirem também um significado profundamente eucarístico. O pão e o vinho, que estão no centro da celebração, são frutos da terra e do trabalho humano que, pela ação de Cristo e do Espírito Santo, tornam-se sacramentalmente o Corpo e o Sangue do Senhor. Do mesmo modo, os frutos colocados junto ao altar recordam à comunidade que tudo aquilo que recebemos deve conduzir à ação de graças. O arroz, alimento fundamental da cultura coreana, recorda de maneira especial o dom da vida e do alimento cotidiano; os frutos da estação expressam a riqueza da criação e os frutos do trabalho humano. Assim, aquilo que a cultura coreana reconhece como bênção da colheita encontra na liturgia o seu horizonte mais profundo: tudo é recebido como dom e tudo deve finalmente voltar a Deus em ação de graças.
Ao mesmo tempo, a presença desses frutos junto ao altar recorda que a abundância não deve ser guardada apenas para nós mesmos. A liturgia de Chuseok convida os fiéis a agradecer, a recordar os familiares que os precederam e a viver em harmonia com a família e a comunidade. A memória dos antepassados, portanto, não se transforma em culto aos mortos, mas em gratidão por aqueles através dos quais recebemos a vida e em oração pelos que já partiram. Diante do altar, a tradição coreana e a fé católica encontram-se de maneira particularmente bela: a colheita torna-se ação de graças, a memória torna-se oração, a abundância torna-se partilha e a mesa da família encontra o seu sentido mais profundo na mesa da Eucaristia.
Na paróquia
Foi precisamente neste espírito que celebrámos o Chuseok na paróquia de Gyesang-dong, onde tenho a graça de colaborar pastoralmente como sacerdote auxiliar. A celebração permitiu-me experimentar de maneira muito concreta como a fé católica pode entrar em diálogo com a cultura local sem perder a sua identidade. Na liturgia, os elementos da tradição coreana não aparecem simplesmente como decoração, mas podem tornar-se sinais que ajudam a comunidade a compreender melhor a gratidão, a memória, a família e a providência de Deus.
A celebração do Chuseok recorda-nos também que a ação de graças cristã vai muito além da gratidão pelos bens materiais. Somos convidados a reconhecer que a própria vida é um dom.
Recebemos a vida de Deus, recebemos a fé daqueles que nos precederam, recebemos a família, a comunidade e tantas pessoas que contribuíram para aquilo que somos. A verdadeira gratidão, portanto, conduz naturalmente à partilha e à responsabilidade pelos outros.
Neste sentido, Chuseok pode ser lido à luz da própria Eucaristia. A palavra “Eucaristia” significa precisamente ação de graças. O que a família coreana vive ao reunir-se, recordar os seus antepassados e agradecer pela colheita encontra na celebração cristã uma dimensão ainda mais profunda. O cristão não agradece apenas pelos frutos da terra, mas pelo próprio Cristo, que se oferece como alimento e vida para o mundo.
Chuseok mostra, assim, que cultura e Evangelho não precisam ser realidades opostas. Quando existe discernimento, a tradição pode tornar-se um espaço privilegiado para o encontro com Deus. A gratidão pela colheita pode abrir-se à gratidão pelo Criador; a reunião da família pode tornar-se experiência de comunhão; a memória dos antepassados pode conduzir à oração; e aabundância recebida pode transformar-se em partilha.
Na Coreia, durante os dias de Chuseok, muitas mesas familiares estarão cheias de alimentos e muitas famílias viajarão longas distâncias para estarem juntas. Para a comunidade cristã, esse mesmo movimento pode adquirir uma dimensão espiritual: reunir-se, agradecer, recordar, rezar e partilhar. No centro de tudo permanece Cristo, que reúne a sua família em torno da mesa da Eucaristia e nos ensina que todo dom recebido se torna verdadeiramente fecundo quando é acolhido com gratidão e partilhado com amor.
Geoffrey Boriga, imc, é missionário na Coreia.