Como uma ponte sobre o Oceano
Oitenta anos de presença das Irmãs Missionárias da Consolata no Brasil.
Oitenta anos de presença das missionárias da Consolata na “Terra de Santa Cruz” (o nome originário dado ao Brasil pelo explorador português Pedro Álvares Cabral, que aqui aportou em abril de 1500). Iniciava de fato em 1946 a ‘página americana’ da nossa história, envio e destinação missionária tanto esperada e desejada, que se tornou possível também devido a um acontecimento desfavorável ocorrido no outro lado do mundo - porque existe uma sabedoria que tudo converge e tudo integra.
As missionárias da Consolata expulsas da Abissínia (atual Etiópia) com o fim da ocupação italiana, voltaram para sua pátria, Itália, num grupo numeroso e lotaram a Casa Mãe da Congregação em Turim. Do Brasil, os nossos coirmãos missionários já tinham feito o pedido muitas e muitas vezes para que viessem para o país as Irmãs e o momento oportuno enfim chegou!
A travessia do Oceano Atlântico das primeiras sete Irmãs é a promessa do que virá depois: a Missão toma uma direção inédita, a espiritualidade e a evangelização se encarnam em uma terra e em uma Igreja diversa, peculiar, que requer abertura, novidade e adaptação.
As sete Irmãs pioneiras, embora conservando na mente e nos olhos as paisagens e as cores da África, sabem ‘adequar-se’ à realidade que as acolhe, sabem aprender as novas línguas, sabem entrar em sintonia com este povo tão diversificado, multiplicam as presenças, trabalhando a terra, ensinando, curando, visitando...
E o Brasil faz o mesmo: se reconhece e se envolve, assume e declina o carisma de Allamano, o relance distante para novas aberturas “Ad Gentes”. E sabe reconhecer também que o hoje é diferente do ontem, em um processo de discernimento e de adaptação que só pode continuar.
Para o Instituto das Missionárias da Consolata, também este aniversário “próximo” no tempo ao do centenário do Fundador, São José Allamano, é um convite a celebrar e festejar; é a confirmação de que a “descoberta do mundo” continua, talvez por estradas e pessoas que nem sequer imaginavam - mas que o Senhor já conhecia bem.
O primeiro grupo de sete Irmãs que iniciaram a presença no Brasil parte do porto de Nápoles no dia 9 de junho de 1946 e no dia 26 do mesmo mês, data memorável, o navio entra na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro, onde já as aguardava o padre Fiorina, e hospeda as Irmãs e os sacerdotes salesianos em seu grande colégio. Na manhã do dia seguinte com o raiar do sol podem contemplar em sua grandeza, o Cristo Redentor. O pensamento corre logo para o grande Guglielmo Marconi, cientista e homem de fé, que em 1931, enviou o impulso elétrico que fez acender as luzes do monumento.
Do Rio de Janeiro, após dois dias de descanso, as irmãs se dirigem para a estação ferroviária de onde partem em um trem confortável e veloz em direção ao sul do país, com destino final em Rio do Oeste, no estado de Santa Catarina. As Irmãs salesianas as acolhem mais uma vez na estação ferroviária e as acompanham na última etapa de sua viagem: um caminhão espera sacerdotes, Irmãos e Irmãs para percorrer os últimos 30 quilômetros. O caminho é lamacento devido às contínuas chuvas típicas do inverno e por isso não se pode ir depressa. Enfim, avistam a colina de Rio do Oeste com a missão e a grande Igreja ainda em construção, as casas de madeira e o seminário.
As pessoas estão às janelas, às portas, as crianças saúdam expansivamente… algumas vestidas de anjinhos param o caminhão e acenam as fitas multicoloridas. O caminhão avança devagar e começa a subida até o local do Santuário da Consolata e a missão que as espera há tanto tempo... A praça diante do Santuário não contém tanta gente que veio ali para receber as Irmãs. Os sinos tocam festivamente, aplausos e cantos ressoam espontaneamente, sente-se a alegria em todos. O diretor da Escola Pública faz o discurso de boas vindas em nome de todo o povo de Rio do Oeste.
Uma estátua da Consolata é introduzida solenemente e as Irmãs entram no Santuário solenemente decorado, confusas e comovidas por todo o afeto e a alegria que as envolveram nesta chegada. Logo depois entram naquela que será a sua casa daqui em diante, preparada cuidadosamente pelas 34 jovens aspirantes, as famosas “Sorores", entre todas as mais felizes.
As famílias em todo o distrito são numerosas, vivem em casas de madeira espalhadas pelos campos, sem assistência religiosa, nem sanitária, nem educativa. Enfim, a pobreza parece mesmo a dona de casa do lugar.
A Consolata aqui é a rainha, e a partir deste lugar alcançará todo o imenso Brasil e outros países do continente americano. Esta é a sua e a nossa América!
(Continua na próxima edição)
Andare alle Genti, revista de Informação e Serviço Missionário, edição abril-junho de 2026. texto traduzido por Irmã Benildes Clara Capellotto, MC.