Ou mudamos ou seremos engolidos pela crise do meio ambiente
O aquecimento global já se converteu no problema mais urgente desse século XXI.
Sem mal-entendido, no centro das discussões atuais, as mudanças climáticas e suas graves implicações desencadeiam adversidades que, sobretudo, e para além do que é imaginado, afetam o sistema de vida. De modo direto, isso implica em dizer que aumentam os impasses quanto ao futuro da nossa própria existência abrigada em um único habitat. Principalmente porque o aquecimento global, até onde é possível perceber, já se converteu no problema mais urgente desse século XXI. Os dados conhecidos mostram que desde 2010 a aceleração do aquecimento vem provocando o aumento do desequilíbrio energético da Terra, isto é, há inequivocamente uma modificação entre a quantidade de energia que o planeta recebe do Sol e a quantidade de energia que ele devolve para o espaço. Isso determina uma série de acontecimentos. Por exemplo: o acúmulo de calor afeta a agricultura, o clima e a geração de energia no país. Afeta, assim, o que começamos a dizer: as condições da vida, a humana e a não humana.
Diretamente relacionado a isso, a grave crise socioambiental e climática que estamos enfrentando – um desafio de todos – não apenas enfraquece a cidadania, mas também, como espécie de subproduto, gera muito tumulto na política pública, uma vez que repercute nas estratégias de ecodesenvolvimento. Ecodesenvolvimento, aproveitando a passagem, é um movimento da economia para a frente, coloquemos assim, que se preocupa com as questões ambientais. E isso faz toda a diferença quando nos vemos diante de um desajuste ecológico-planetário que coloca a prova a governança, notadamente à medida que potencializa ações com o pendor de aumentar vulnerabilidades.
Esse é, resumidamente falando, um novo quadro planetário em que ações pontuais que deixam em evidência mudanças significativas no uso da terra, no mundo das águas, nos organismos e na atmosfera, aumentando, por exemplo, a poluição planetária, problema da modernidade que permeia todas as partes do planeta. Essas ações também aceleram as emissões de dióxido de carbono. Ajudam a destruir habitats, acidificam os oceanos, alteraram a física, a química e os processos biológicos do planeta.
Seja como for, são ações que levam o mundo moderno para uma trajetória insustentável e nos deixam completamente despreparados para o futuro, uma vez que mostram o “insustentável peso do planeta”, para usar em bom tempo as palavras de Jeffrey Sachs.
Nessa direção, a crise multidimensional atual deixa uma lição muita clara: ou entendemos a urgência da transição ecológica e derrubamos aquilo que está na base da crise, isto é, o mito do crescimento material infinito (produtor de impactos ambientais), inaugurando assim um modo de vida mais frugal, ou vamos ser engolidos, cedo ou tarde, por um mundo sem a mínima condição de resiliência ecológica e sem eficiência energética, capaz de acelerar múltiplas ameaças contra todas as espécies, a nossa inclusive.
Entender como chegamos até aqui requer um exame detalhado. Mas, todavia, é bom perceber que, pela primeira vez, começamos a irromper uma crise multidimensional. Essa crise, gestada “dentro da organização social”, para repetir a potente narrativa de Ailton Krenak, “perdeu o respeito pela natureza”.
Obviamente, isso traz algo aterrador em nossa conduta: seduzidos pela economia de mercado e pela cultura material, resta claro que falhamos na defesa do meio ambiente, cada vez mais entregue à vontade do grande capital.
Daí em diante, nesse vasto mundo de abundância organizada pela lógica de acumulação capitalista, os interesses da economia (o padrão de produção e consumo além dos limites) se sobrepõem à questão ambiental. Não por acaso, o acontecimento Antropoceno desenha um cenário de degradação ambiental que, antes de mais nada, faculta sepultar a ideia de sustentabilidade.
Por isso, seguindo ainda Ailton Krenak, haveremos de concordar que, em algum momento, “[...] perdemos a capacidade de nos atualizar com relação à vida no planeta”.
Nesse desdobrar, “os humanos”, continua dizendo com sobra de razão Ailton Krenak, “estão aceitando a humilhante condição de consumir a Terra”.
Nessa configuração antrópica desanimadora, diante desse sinal de nossa impotência, dado o nível de superexploração de capital natural, vemos explodir a busca por sustentabilidade.
De todo modo, como estamos diante de um sistema de produção e consumo global que degrada ecossistemas, esgota as reservas naturais ainda disponíveis, invade habitats do mundo selvagem, elimina variadas espécies da biodiversidade, cada vez mais explodem diante de nós ações contra a vida, contra as pessoas e, claro, contra o patrimônio ecológico global, do qual todos dependemos. Esse tipo de desenvolvimento, coloquemos assim, afeito à cultura da mundialização do capital e à abundância econômica que produz a escassez ecológica, só pode provocar o que aí está, a saber, a mais significativa bancarrota ecológica. Exemplar nesse sentido, para António Guterres, secretário-Geral da ONU, o capitalismo consumista de natureza, combinado a perturbações antropogênicas, “empurra o planeta para além de seus limites”.
Agora mesmo, destruídos pela modernidade capitalista que ignora as condições ecológicas, colhemos os resultados: o impacto ambiental é devastador. A pressão dos humanos sobre o conjunto dos ecossistemas saiu de controle. Diante desse quadro, eis o inevitável destacado por William Ripple e colegas: “grande parte da estrutura da vida na Terra está em perigo”.
Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental, mestre em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo – USP. Autor de A civilização em risco (Jaguatirica, 2024), e Quando ainda existiam árvores, em parceria com Dal Marcondes (Multifoco, 2026).