A Missão Invisível
A humanidade escondida do missionário em contextos de extremo isolamento.
Quando em 2019 cheguei na Missão Catrimani, entre o povo Yanomami no Estado de Roraima, acreditava que a missão consistia principalmente em aprender uma nova língua, compreender a cultura do povo e anunciar o Evangelho por meio da presença e da convivência. Sabia que encontraria desafios, mas imaginava que eles estariam do lado de fora: a floresta, as distâncias, o isolamento e as diferenças culturais.
Com o passar dos anos, descobri que a missão mais exigente não estava diante ou fora de mim, mas dentro de mim. A missão transforma o missionário antes mesmo de transformar qualquer realidade. Essa é uma verdade sobre a qual pouco se escreve.
Falamos muito dos povos, dos projetos, das dificuldades, dos frutos e dos desafios pastorais. Entretanto, quase não falamos da humanidade daquele que permanece anos em contextos extremos. Existe uma missão invisível, silenciosa, que acontece no coração de quem foi enviado.
Ao longo destes sete anos aprendi que o missionário continua sendo plenamente humano. Continua sentindo medo, saudade, cansaço, alegria e esperança. Continua precisando de silêncio, de oração, de descanso e de pessoas que o escutem. Reconhecer isso não diminui a vocação; torna-a mais verdadeira. A graça de Deus não elimina a natureza humana, mas a fortalece.
São José Allamano insistia que o missionário deveria buscar antes de tudo a santidade. Para ele, não bastava fazer muito; era necessário ser profundamente unido a Deus. A missão nasce da vida interior. Essa espiritualidade ensinou gerações de missionários a entender que a fecundidade apostólica não depende apenas da eficiência, mas da qualidade da presença. Permanecer junto do povo exige, igualmente, permanecer unido a Cristo.
A convivência com o povo Yanomami também me evangelizou. Aprendi a respeitar o ritmo da floresta, a ouvir antes de falar e a compreender que presença vale mais do que pressa. A floresta ensina que tudo tem seu tempo. Nenhuma árvore produz frutos continuamente. Também o missionário precisa de tempos de renovação para continuar oferecendo vida.
O Concílio Vaticano II no decreto Ad Gentes, recorda que a Igreja é missionária por sua própria natureza. Essa natureza missionária, porém, nunca pode esquecer a dignidade da pessoa enviada. O Papa Francisco, na Evangelii Gaudium, convida a Igreja a ser uma comunidade de discípulos missionários que caminha com alegria. Essa alegria não nasce do ativismo, mas do encontro permanente com Cristo. Em Fratelli Tutti, o Papa Francisco recorda que toda missão autêntica nasce da proximidade, do cuidado e da capacidade de reconhecer a humanidade do outro. Talvez devamos acrescentar: também da capacidade de reconhecer a humanidade do próprio missionário.
Ao longo do caminho percebi que existe outra floresta, invisível aos olhos: a floresta das expectativas. Espera-se que o missionário esteja sempre disponível, sempre forte e sempre pronto. Poucos perguntam como ele está. No entanto, cuidar da própria saúde física, emocional e espiritual não significa fugir da missão. Significa garantir que ela continue. Um coração esgotado dificilmente conseguirá permanecer sinal da esperança de Deus.
Escrevo estas linhas não para falar de mim, mas para dar voz a tantos missionários que vivem realidades semelhantes. A missão precisa de homens e mulheres apaixonados pelo Evangelho, mas também conscientes dos seus limites. Precisamos formar missionários capazes de amar profundamente os povos aos quais são enviados sem perder a própria humanidade.
Depois de sete anos em Catrimani, continuo convencido de que Deus me chamou para caminhar com o povo Yanomami. Continuo acreditando que vale a pena gastar a vida pela missão. Mas hoje sei que permanecer missionário exige também permanecer humano. Talvez essa seja a missão invisível: deixar que Deus cuide do coração daquele que Ele mesmo enviou. Quando isso acontece, o missionário descobre que a sua maior obra não é aquilo que realiza, mas a pessoa que, pela graça de Deus, vai se tornando ao longo do caminho. “Caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar…”.
*Bob Mulega, imc, missionário na Missão Catrimani em Roraima, Brasil.