Liderança fiel em defesa dos direitos e do território na Raposa Serra do Sol

10 de setembro de 2026

Celebrar o dia dos catequistas na Terra Indígena Raposa Serra do Sol é celebrar a importância que a Palavra de Deus tem na vida do povo.

Por Oscar Liofo Tongombe  

O mês de agosto é conhecido na Igreja Católica como mês das vocações. Cada domingo, uma das vocações é celebrada. No primeiro domingo, a Igreja convida os cristãos a rezar e agradecer a Deus pela vocação sacerdotal. No segundo domingo, celebra-se a vocação à família (dia dos pais); no terceiro domingo a vocação à vida religiosa consagrada; e no quarto domingo, a vocação dos leigos e especialmente dos catequistas.

A catequese é e será sempre um dos meios mais importantes da evangelização dentro da Igreja, pois, através dela, se descobre e se vive bem todas as vocações. Ela se torna um caminho usado para conhecer as realidades divinas e a prática da fé. Ela leva ao conhecimento do próprio Jesus Cristo, a história da salvação da humanidade, o caminho da fé através da recepção e vivência dos sacramentos.

O primeiro lugar onde acontece a catequese é sempre a família, pois os pais se tornam os primeiros catequistas transmitindo a fé e a educação. Mas, antes de tudo, esta prática da fé na família recebe as orientações da Igreja. Por isso, o catequista tem um papel importante na obra da evangelização porque recebe a mensagem de Cristo procurando se deixar transformado por esta mesma mensagem antes de transmiti-la aos outros. Foi assim que a Palavra de Deus chegou na Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

A Raposa Serra do Sol é um território indígena situado no Norte do Estado de Roraima no Brasil. Este território é organizado em quatro regiões a saber: Serras, Baixo Cotingo, Surumu e Raposa. Cada região é composta por comunidades indígenas tendo várias etnias como: Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Patamona, Taurepang, Areekuna. Estas regiões são bem conhecidas através das lutas pela vida digna e pela proteção do território.

Por muitos anos, a Terra Indígena Raposa Serra do Sol sofreu várias invasões. Mas, graças às lutas das lideranças indígenas, a terra foi demarcada e homologada. Mesmo ganhando essa batalha, a luta de cada dia continua a fim de manter e proteger os direitos conquistados até hoje.

Durante as lutas de vários anos, a Palavra de Deus sempre teve e continua tendo uma importância fundamental, pois sempre serviu de apoio e orientação. A história ensina que, desde sempre, os Macuxi reconheciam a presença de Deus (Paapa) nos rituais tradicionais praticados pelos avós. Com este sentimento de buscar conhecer mais a Deus em 1913,  “o tuxaua geral Arabath enviou uma delegação guiada pelo Arupá ao padre jesuíta Cary Elwys da Missão Santo Inácio de Lethem, da ex-Guiana Inglesa” cfr Filhos de Makunaimî, p. 37). O padre Inácio atendeu o convite só dois anos depois. Este convite tinha como objetivo reforçar os conhecimentos da comunidade sobre a Palavra de Deus.

Ao longo do tempo, os monges Beneditinos assumiram a obra da evangelização nestas terras a partir do ano de 1917 até 1948.  Nestes anos, Dom Alcuíno, monge Beneditino, se destacou no meio dos indígena pela sua pastoral e catequese. Ele foi carinhosamente chamado de “Padre Macuxi”. O serviço pastoral consistia em batizar, fazer casamento, catequizar e celebrar missas, reunindo os indígenas nas fazendas.

Depois dos monges beneditinos, os missionários da Consolata chegaram em Roraima em 1948 para continuar com a obra da evangelização. Ao chegarem na Raposa Serra do Sol, os missionários continuaram com a pastoral iniciada pelos monges beneditinos. Nesta continuidade do serviço da catequese, “em 1962, os Missionários da Consolata, Padre Osvaldo e Irmão Jorge Makuxi, continuaram o trabalho dedicando-se mais de perto à situação da comunidade, construindo a primeira escola em Maturuca” (cfr Filhos de Makunaimî, p.38).

A pastoral de desobriga consistia nos ensinamentos catequéticos, na administração de sacramentos nas comunidades indígenas e, na maioria dos casos, nas fazendas. Este serviço era realizado pelos missionários pois ainda não existiam os catequistas. No aprofundamento das realidades da cultura indígena da Raposa Serra do Sol, surgiu a necessidade de mudar as orientações do caminho catequético.

 Esta mudança vinda dos próprios missionários a partir dos anos 70 levou a uma transformação verdadeira da vida dos indígenas. Assim como conta o padre Giorgio Dal Bem, os ensinamentos da Palavra de Deus levaram o povo a tomar consciência da realidade dentro do próprio território. Diante desta grande necessidade, os missionários começaram o curso de liderança para os tuxauas e jovens indígenas. Após cada curso, os tuxauas e jovens voltavam às suas comunidades com a missão de transmitir a mensagem para os que não participaram. No caminho da luta e libertação, os tuxauas e os jovens foram os primeiros catequistas nas suas comunidades porque o curso levou o povo a viver uma profunda conversão. 

A decisão de 26 de abril de 1977, ‘ou vai ou racha’ na comunidade Maturuca foi o fruto do serviço catequético realizado pelo Padre Giorgio Dal Bem onde 16 membros da comunidade disseram não à bebida alcoólica e sim à comunidade. Foi também a partir dos ensinamentos catequéticos que o plano de Deus sobre nós veio a ser a base para o caminho de luta dos direitos e proteção do território, o projeto Gado (una muca per il índio), luta pela demarcação e homologação da terra indígena Raposa Serra do Sol e a conquista de vários direitos dos povos indígenas.

Portanto, o catequista indígena na comunidade é uma liderança importante que não só procura transmitir a Palavra de Deus, mas também trabalha para a conquista dos direitos das suas comunidades. Ele é chamado a conhecer a cultura e a língua do seu povo, a Palavra de Deus e buscar ser exemplo de vida na comunidade.  Diferente das outras realidades, o catequista indígena é responsável pela preparação e realização da celebração da Palavra de Deus na ausência do ministro ordenado; é responsável pela preparação dos ensinamentos catequéticos para os sacramentos. Além destes serviços, o catequista é chamado a estar na linha de frente junto com os tuxauas nos momentos dos encontros e manifestações defendendo ou reclamando os direitos dos povos indígenas.

Celebrar o dia dos catequistas na Raposa Serra do Sol é celebrar a importância que a Palavra de Deus tem na vida do povo. Esta Palavra lembra sempre o povo a viver unido, pois sem a vivência da Palavra de Deus, existirão sempre a desunião, os vícios que destroem as famílias e as comunidades. O curso para os catequistas indígenas sempre será de uma importância capital para o bem da Raposa Serra do Sol.

Oscar Liofo Tongombe, imc, missionário da Consolata na Missão Indígena Surumu, Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

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