Medos, Males e Mágoas

19 de agosto de 2026

Três aspectos meio siameses, misturados e entrelaçados. Moram juntos, se fundem e se visitam com frequência. Conservam conexões superficiais e profundas, subterrâneas. 

Por Alfredo J. Gonçalves

Mágoas são chagas, ressentimentos não inteiramente resolvidos, tristezas, angústias e recordações que ainda causam dor e sangram. Feridas que o tempo não conseguiu cicatrizar. Por isso, voltam a abrir-se nos embates e combates da existência, causando infecção e pus. Reavivam e reacendem a memória, amargam e infernizam a travessia. Podem nos acompanhar até o fim de nossos dias, como espectros que surgem e desaparecem, de acordo com a luz ou as trevas de nossas lembranças. Cobrem nossos projetos, nossos caminhos e nossos passos com nuvens sombrias que ofuscam tanto o passado quanto o presente, sem falar no horizonte cego e cerrado do futuro. As mágoas conferem à vida um fardo cada vez mais pesado, encurvando nossos ombros, ao mesmo tempo que afastam de nós aqueles que convivem e trabalham ao nosso lado. Não é raro ver pessoas acariciando suas mágoas como quem acaricia um animal de estimação. Pessoas que prendem-nas em gaiolas, e, como aos pássaros, as fazem cantar onde quer que se encontrem.

Males são ações que arranham o corpo, a alma e a existência. Causam mal-estar físico, psíquico, emocional e espiritual. Ferem e podem, direta ou indiretamente, levar à doença e à morte. Pedras que costumamos atirar sobre quem tem telhado de vidro, mas que, não raro, caem primeiro sobre nossas próprias cabeças, pois todos habitamos sob telhados frágeis e vulneráveis. São também palavras com as quais tentamos difamar os outros, distorcendo os fatos, mas que ferem primeiramente nosso coração. São males, ainda, as mentiras ou meias verdades, fofocas e ameaças com que envenenamos o ambiente ao redor. Ou, ainda, gestos e olhares constrangedores que tornam tóxico o ar que respiramos. Conhecemos todos aquele tipo de silêncio deserto, pesado e envenenado das relações humanas e sociais. Bem diferente do silêncio fecundo e povoado do tesouro das boas recordações. Mal é tudo aquilo que afasta o outro do nosso meio, ou faz com que dele nos afastemos. Aquilo que nos torna estranhos um ao outro.

Medos são fantasmas que costumam povoar as trevas. Quanto a vida não é clara e transparente, nascem, crescem e proliferam momentos, ocasiões e sentimentos fantasmagóricos. São ideias, imagens e "seres" fantasiosos, criados por imaginações enfermas, e que habitam as noites de escuridão. Daí a necessidade de iluminar os recantos mais ocultos, obtusos e obscuros da própria existência, das próprias entranhas. A luz faz desvanecer as sombras, pondo para correr os ratos e ladrões que nelas gostam de se abrigar e esconder. Por outro lado, como ensina a psicologia, verbalizar medos e pesadelos é uma forma de exorcizar os fantasmas. Estes, com efeito, ou nos dominam ou nós os dominamos. Dar-lhes nome é passar ao domínio sobre eles. Como "pegar o touro pelos chifres", diz o ditado. De igual maneira, domesticar um cachorro é por-lhe um nome que o identifica e o torna "nosso, de casa, manso". Cachorro selvagem ou vira-lata segue sendo animal sem nome, que late e morde.

Alfredo J. Gonçalves, cs, é assessor do Serviço de Proteção ao Migrante (SPM), São Paulo, SP.

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