Contemplação e ação: os gestos de São José Allamano
José Allamano conseguiu harmonizar sua profunda espiritualidade com uma atenção sábia e visionária ao ambiente em que vivia e às pessoas que conhecia.
Para entender a influência de José Allamano na sociedade de sua época, é importante situar sua figura e sua obra no contexto histórico, político, social e religioso de Turim, Piemonte e da Itália do Ressurgimento. Nessa época contrastante, Allamano conseguiu harmonizar sua profunda espiritualidade, com uma atenção sábia e visionária ao ambiente em que vivia e às pessoas que conhecia. Sem dúvida, ele pertence àquele grupo de homens e mulheres, religiosos ou leigos, que, nas dobras da história, movidos pelo Espírito, encarnaram a Caridade das formas mais diversas; alguns deles com vida ativa, outros combinando “contemplação com ação”, assim como fez São José Allamano.
O binômio: “contemplação e ação” vivido pelo Reitor do Santuário da Consolata surge claramente durante o processo informativo diocesano, que iniciou o processo de reconhecimento da santidade de Allamano pela Igreja. As testemunhas, antes de tudo, seu empregado doméstico Cesare Scovero, apontaram que no cotidiano de Allamano a oração tinha prioridade:
“Ele nunca estava ocioso e todo o seu tempo livre das ocupações ele o passava em oração. Rezou por muito tempo nos coros do Santuário mesmo durante a noite; ele rezava em seu quarto, no Santuário e até mesmo quando fazia uma viagem. Ele fazia visitas frequentes e longas a Jesus no Santíssimo Sacramento a partir dos coros do Santuário, e durante essas visitas, entretinha-se em orações fervorosas. Mesmo à noite, antes do descanso, de vez em quando, ele ia aos coros para fazer a visita ao Santíssimo. Pode-se dizer que toda a sua vida foi uma vida de oração.”
Allamano, na Consolata, onde permaneceu como reitor por 46 anos, tornou-se dispensador de misericórdia, serenidade e consolo para muitos. Sua inteligência e olhar vigilante e atento ao que acontecia na sociedade lhe renderam a simpatia de muitos, especialmente daqueles desorientados ou em dificuldades. Em seu próprio estilo, ele não se contentava em incentivar a renovação da vida cristã, mas sabia harmonizar uma espiritualidade profunda com a atenção aos desafios de seu tempo.
Certamente não era um estudioso dos problemas sociais, mas simplesmente considerava seu dever colaborar nas iniciativas que animavam a diocese no âmbito social, com algumas características sublinhadas por várias testemunhas:
“Ele sabia ficar em silêncio e agir, sem bater tambores, porque o bem não faz barulho e o barulho não faz o bem”.
“Ele tinha a arte de não se manifestar.”
“Ele era o homem que tinha mais ideias do que palavras.”
O Reitor do Santuário, além de contemplar Jesus na Eucaristia e dialogar com a Consolata, com gestos pequenos e grandes, tornou-se um “vizinho” tornando-se: “palavra”, “mão” e “rosto” do Deus da Consolação.
Ele incentivou pessoas de diversas classes sociais a iniciarem projetos inovadores. Ele se interessou diretamente, até o fim de sua vida, em proteger uma categoria particularmente desfavorecida naquela época: as jovens trabalhadoras na indústria do vestuário, comumente chamadas de “costureiras”, que ganhavam pouco, com jornadas exaustivas e condições de trabalho precárias. As “costureiras”, incentivadas e apoiadas, também financeiramente por Allamano, em 1899 iniciaram o “Laboratório da Consolata”, que em pouco tempo abriu filiais em Gênova e Roma, onde milhares de trabalhadores e gerentes do setor da moda foram formados.
No século XIX, a imprensa católica tentou conquistar um espaço entre as várias publicações, mas foi muito difícil obtê-lo. Allamano apoiava a imprensa católica, que considerava um meio privilegiado de formar a opinião pública. Sua ajuda financeira foi decisiva para o nascimento, ou para a continuidade, de alguns jornais católicos da época.
O Papa Bento XVI, em sua Mensagem para a Quaresma de 2013, afirmou:
“Às vezes há uma tendência a limitar o termo ‘caridade’ a solidariedade ou simples ajuda humanitária. É importante, no entanto, lembrar que a evangelização é a maior obra de caridade. Não há ação mais benéfica e, portanto, caridosa para com o próximo do que partir o pão da Palavra de Deus e introduzi-la na relação com Deus: a evangelização é a promoção mais elevada e integral da pessoa humana”.
A Igreja local, na época de Allamano, havia iniciado muitas instituições de caridade, mas nenhuma dedicada exclusivamente às missões. Ele, convencido de que uma Igreja só atinge sua plena maturidade quando olha além de seus limites e necessidades, decidiu inserir aquela “peça” que faltava que tornaria o rosto de sua Igreja completa: a Missão.
Allamano, iluminado pelo Espírito Santo, movido pelo amor a Deus e pelo desejo de torná-lo conhecido, fundou primeiro os missionários e depois as missionárias da Consolata. Foi uma empreitada exigente, cansativa e às vezes contrariada, mas o zelo apostólico, o senso vivo da natureza missionária da Igreja e a constante proteção da Consolata sustentaram Allamano.
Maria Luisa Casiraghi é Missionária da Consolata.