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Atualidade

Por mais moradias e qualidade de vida: impasses e perspectivas

Campanha da Fraternidade (CF) 2026 reforça importância dos leigos no processo de transformação social.

Por Rene Barbosa 

De acordo com a Constituição Federal de 1988, no seu artigo 6º, a moradia é um direito básico e fundamental para promover a dignidade humana, juntamente com a educação, a saúde, o lazer, a alimentação, entre outros bens essenciais à elevação da vida. Diante disso, a Campanha da Fraternidade 2026, cujo tema é Fraternidade e Moradia e o lema: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), incentiva a discutir sobre a questão da moradia em diversos espaços sociais – pastorais, movimentos organizados pela defesa da vida, comunidades eclesiais e os ambientes interessados pela efetivação dos direitos sociais e humanos. Apesar da atuação do poder público, ainda se observam alguns desafios na conjuntura atual, por exemplo, como a falta de qualidade de vida em bairros periféricos.

Em primeiro plano, as administrações governamentais municipais não conseguiram superar o crescimento desordenado de favelas por meio de políticas públicas organizadas, consistentes e efetivas. Em um contexto marcado por avanços e retrocessos sociais, as políticas relacionadas à urbanização também são fragmentárias e não conseguem levar dignidade humana para os moradores, além de outros direitos fundamentais. Não basta apenas urbanizar as favelas e garantir o direito à moradia de qualquer jeito, sem propiciar lazer, cultura, escola de excelência de ensino, saúde humanizada e outros direitos básicos. A urbanização necessita ser integral, promovendo uma vida sob a luz da qualidade democrática.

Ainda convém lembrar que os impasses sociais crescem cotidianamente nas favelas. Nesse sentido, a mobilização das lideranças comunitárias é essencial para conscientizar os moradores sobre os seus deveres na mudança social. Significa educá-los numa perspectiva crítica, dialógica e humana, mostrando que cada um pode contribuir na melhoria do bairro e, consequentemente, lutar para a ampliação dos direitos sociais. Embora o poder público seja responsável pela garantia dos bens sociais, destaca-se que a participação cidadã é crucial na construção de favelas dignas. Os indivíduos esclarecidos são convidados a colaborar na defesa dos direitos básicos, como também a atuar para que a transformação social seja efetivada no cotidiano.

As lideranças pastorais nas paróquias, ou nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), têm uma contribuição valiosa na formação de cidadãos comprometidos pela afirmação dos direitos sociais frente à falta de bens necessários à promoção da dignidade humana. Os cristãos são convidados a colaborar no desenvolvimento de práticas voltadas à humanização da sociedade, sobretudo no modo de anunciar a mensagem do Evangelho para uma vida digna e abundante (Jo 10,10). Os Documentos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, sobre o papel dos leigos e leigas no ambiente eclesial e no universo social, destacam que “[...] nem a Igreja e nenhum cristão vive para si mesmo. Sua missão é sair de si, iluminar, se doar, dar sabor e se dissolver. Os cristãos leigos e leigas, na Igreja e na sociedade, devem ter olhares luminosos e corações sábios, para gerar luz, sabedoria e sabor, como Jesus Cristo e seu Evangelho” (CNBB, n. 13).

A Campanha da Fraternidade de 2026, assim como em outras edições, reforça também a importância do laicato no processo de transformação social. Os leigos e as leigas podem nutrir novas perspectivas na edificação do reinado de Deus e, ao mesmo tempo, anunciar o Evangelho em sintonia com os direitos sociais e humanos. Não existem motivos para que as lideranças pastorais e os demais membros da Igreja estejam distantes dos clamores sociais por mais moradias e qualidade de vida nas favelas e no âmbito comunitário. Comunicar o Evangelho – seguindo os passos de Jesus e a proposta do reinado de Deus – significa defender as causas sociais e lutar para que todos tenham acesso digno à moradia, ao saneamento básico, à educação, entre outros bens. 

Embora seja possível compreender a presença dos leigos e das leigas na Igreja e na sociedade, destaca-se que é desafiante avançar nos trabalhos pastorais para além da programação paroquial. O Documento da CNBB (n. 40) aponta que mesmo com a "[...] insistência dos documentos eclesiais de que o primeiro âmbito de ação do leigo é o mundo, percebe-se a tendência a valorizar, exclusivamente ou quase, o serviço no interior da Igreja, o que prejudica a tomada de consciência da importância dos cristãos leigos e leigas nas realidades do mundo". É importante que os leigos e as leigas escutem as demandas do entorno social da paróquia, a fim de apresentar soluções práticas à melhoria do bairro, visto que o reinado de Deus envolve outras dimensões, entre elas o direito à moradia de qualidade. 

Os padres, as lideranças comunitárias, os membros de pastorais,  entre outros participantes, podem contribuir, à luz da sinodalidade (DF 153), para que as comunidades cristãs sejam a presença de Cristo em meio à falta de dignidade humana. Paróquias sinodais jamais perdem a proposta ética de Jesus (cf. Mt 25, 35-39), a compreensão sobre a pluralidade social, o respeito pelas outras religiões, o cuidado pelas favelas, dentre outras práticas sinodais. O Documento Final (153) sublinha que “[...] a sinodalidade da Igreja torna-se profecia social, inspira novos caminhos também para a política e a economia, colabora com todos aqueles que acreditam na fraternidade e na paz [...]”. Buscar a sinodalidade, como forma de viver o Evangelho na sociedade, implica envolver-se com as questões sociais, tentando solucionar os problemas nas periferias. 

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, observou que: “A pastoral em chave missionária exige o abandono deste cômodo critério pastoral: ‘fez-se sempre assim’” (EG 33). Isso ainda é muito comum de se escutar no contexto paroquial por algumas lideranças, dentre outros cristãos que se fecham à formação e não anunciam o Evangelho com base na sinodalidade, a fim de responder aos desafios atuais no ambiente social. Francisco ainda observou: “[...] Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades" (EG 33). A ressignificação no trabalho pastoral, em um contexto de desafios sociais, é crucial no anúncio do Evangelho, sobretudo para fortalecer a presença da Igreja nos lugares desertos de direitos sociais e humanos amplos e dignos.

Em virtude do que foi mencionado, o tema e o lema da Campanha da Fraternidade servem para inspirar novas práticas evangélicas voltadas à promoção da dignidade humana. Ademais, convidam a todos os interessados na efetivação do reinado de Deus a lutar por mais direitos sociais sob a luz do Evangelho. Os cristãos podem colaborar na tentativa de mudança social nas favelas por meio de trabalhos pastorais voltados a dialogar com os problemas no entorno paroquial. Os membros de pastorais são convidados a dialogar com o poder público – até mesmo ocupando o espaço institucional –, propondo alternativas à melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. Sempre é tempo de renovar as posturas na conjuntura eclesial e cuidar para que os direitos básicos não sejam violados. 

*Rene Barbosa é Mestre e Doutor em Educação (UMESP) e Pós-doutor em Educação (PUC-SP)
ReferênciasCONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Cristãos leigos e leigas na sociedade: sal da terra e luz do mundo. Documentos da CNBB 105. Brasília: Paulinas, 2016.FRANCISCO, Papa. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium sobre a alegria do Evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulinas, 2013. SECRETARIA GERAL DO SÍNODO DA IGREJA. Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão. Documento Final. Vaticano: Secretaria Geral do Sínodo, 2024.

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