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Espiritualidade

Quaresma: o caminho pascal

A Quaresma é o tempo mais marcante da Liturgia Latina, e merece uma abordagem específica, com destaque para a Palavra que é proclamada, as orações que são propostas, e os sinais que se utilizam. 

 Por Mauro Negro

Os crentes podem e devem encontrar durante a Quaresma, sobretudo nos Domingos, um roteiro de conhecimento intelectual e afetivo, um crescendo no encantamento e um aprofundamento no Mistério que é celebrado como Memorial. O que aqui se apresenta é a proposta de uma “espiritualidade quaresmal” a partir destes pontos, presente nestes dias: a Palavra, os Ritos, os sinais. 

Uma das maiores contribuições que a reforma litúrgica proposta pelo Concílio Vaticano II ofereceu à Igreja foi a organização das Leituras bíblicas na Liturgia da Eucaristia e em outros momentos litúrgicos. Nunca, como agora, se proclama tantas leituras bíblicas nas celebrações. A organização dos textos, sua distribuição ao longo do ano e dos três anos litúrgicos (Ano A, Ano B, Ano C) e as leituras nos dias feriais, divididas em dois formulários (Ano litúrgico Par e Ano litúrgico Ímpar), completam o caminho de conhecimento da Palavra e sua possível vivência. 

Adolf Adam, importante liturgista do século XX, escreveu em sua célebre obra “O Ano Litúrgico”, entre tantas esplêndidas percepções, isso: 

“Se trata de uma presença de Cristo não subjetivo-psicológica, mas objetiva, não estática, mas dinâmica. (…) O modo mais preciso desta presença e eficácia foi objeto, em nosso século, através da teologia dos mistérios (grifo do autor), do monge beneditino Odo Casel, de Maria Laach, de ampla pesquisa e discussões. (…) (Adolf ADAM. L’anno litúrgico: celebrazione del mistero di Cristo. Torino: EDC, 1984, pág. 33). 

O que Adam deseja é afirmar que o Mistério de Cristo está presente em toda a Liturgia, inclusive na Palavra proclamada, não somente nos sinais sacramentais. E na Quaresma o caminho pascal é já evidenciado.  

A “Espiritualidade Pascal” é o que se busca aqui. Parece que há uma contradição de termos: falamos de Quaresma, mas indicamos o termo espiritualidade com o adjetivo relativo à Páscoa. O caso é que, ainda que estejamos observando a Quaresma, sabemos que ela é somente uma parte do caminho, que tem seu auge na Páscoa e que se expande para oito semanas. Além disso, a Espiritualidade Pascal não é apenas uma espiritualidade para um tempo, uns meses do ano, senão para toda a vida humana de Fé. Na multiplicidade de propostas e fórmulas religiosas que vemos e nas quais vivemos, é importante determinar um caminho específico, um roteiro para um ponto de chegada seguro e claro. A citada Espiritualidade Pascal, iniciada na Quaresma, é este caminho que queremos aqui propor e sobre ele argumentar. Mariano Magrassi, liturgista, biblista e Arcebispo, afirmou: 

“E a salvação? Não é ali (na Páscoa) a sua fonte? Cristo não está ali somente para fazer-se contemplar: está presente com toda a sua potência salvífica, com o seu Mistério Pascal, que é a síntese de todo o agir de Deus, para ligar fortemente a nossa vida e introduzi-la na salvação” (Mariano MAGRASSI. Vivere la Liturgia. Noci: La Scala, s/d, pág. 263).

Fé como peregrinação

A natureza da Fé é peregrina. O crente é, por sua natureza, um peregrino: nunca para. Mas, se parar, não estará imóvel, e sim, retrocederá. Andará para trás, pois a “flecha da Fé” vai em uma direção, tal como o tempo. A espiritualidade pascal, vivenciada na Quaresma, é também uma espiritualidade peregrina. É um “caminho”! Este foi o primeiro nome que a Comunidade dos fiéis recebeu, como lemos em Atos dos Apóstolos 9,2. Ainda no livro de Atos encontram-se muitas vezes o substantivo “caminho” como sentido da Fé, como processo de crescimento, como metáfora da história. A presença deste conceito formou a identidade da Igreja, que busca o caminho de Salvação que é Jesus, autoproclamado em João 14,6 como “caminho, verdade e vida”. Tomás Halik afirma que… 

“Aqui, na terra, a fé não oferece nenhuma ‘certeza’, mas requer abertura em face do incompreensível: no perguntar, no buscar e, por vezes, no clamor, nas lágrimas e no protesto, mas também na incessante imploração da confiança e perseverança, na coragem de não se contentar com as respostas e as explicações imediatas e já feitas, demasiado baratas, não importa se lidamos com as dos ateus, como ‘não há Deus!’, ou com as dos devotos, que apenas repetem frases aprendidas ou ‘respostas corretas’, sem deixar que elas influenciem ou mudem a sua vida. A sede de Deus e a demanda de Deus suscitam, com razão, gêiseres de associações, fantasias e questões correlativas (por exemplo, o que significa a palavra ‘Deus’ e o ‘Ser’ em ligação com Deus); a mim, pois, estas duas respostas dogmáticas e rígidas (a negação ateia de Deus e o apresamento teísta do mistério na camisa de forças de definições inequívocas) sempre me surgiram como dois obstáculos igualmente infelizes em frente da porta para a grande aventura espiritual. (Tomáš HALÍK. O meu Deus é um Deus ferido. Prior Velho: Paulinas, 2016, pág. 29)

Em um caminho existem marcos, indicações de espaço, de direção, de distância e tempo. Existem indicações de metas, onde o viajante deseja ou pode chegar. Assim na Quaresma, que é o “Caminho Pascal”, encontramos marcas, sinais que precisam ser bem observados e que vão além de uma simples celebração onde se ouve algo e se retorna para o cotidiano sem um impacto, uma transformação. O que desejamos apresentar aqui é um esboço de um percurso, de um caminho que o crente faz ao longo das semanas quaresmais. Usaremos as lições bíblicas ou as leituras que a Liturgia Católica Latina propõe. O ideal seria observar com atenção as quatro Lições dominicais, o que tornaria este texto um tanto quanto longo. Seria necessário considerar também as Orações que a Igreja propõe e algumas formulações nos Prefácios. A Liturgia deste tempo é rica e significativa, mas deve-se simplificar os argumentos. Assim é que escolheremos leituras e orações que nos parecem marcantes para os comentários, e indicaremos as possibilidades das outras, especialmente Lições, que o dia propõe. 

Ainda fazemos uma observação que parece necessária. A Igreja, o Povo de Deus reunido para ouvir o Senhor, tem uma experiência bimilenária. Mais do que a opinião de quem observa um aspecto ou uma perspectiva específica, a Igreja tem o conhecimento de séculos de pregação da Palavra, de experiências múltiplas, com êxitos e fracassos próprios dos movimentos da história e das sociedades. Então, o caminho da vida da Igreja, que tem sua mais imediata expressão na Liturgia, parece ser o mais óbvio e imediato. E é por isso que iremos observá-lo e nele encontrar o que precisamos conhecer. 

A Quarta-Feira de Cinzas. Este dia é um tanto curioso como início da Quaresma pois tem uma identidade que não é retomada ao longo das cinco semanas quaresmais. É uma porta de entrada no Caminho Pascal, que chama a uma postura especial do caminhante, mas cujos temas não se desenvolvem ao longo do período. 

A primeira parte: As Tentações e a Transfiguração. Os dois primeiros Domingos do Caminho Pascal estão diretamente relacionados à Pessoa de Jesus. Ele é evidenciado como Verdadeiro Homem e como Verdadeiro Deus. Estas instâncias são argumentadas pelos Evangelhos que são proclamados. 

No primeiro Domingo, as tentações do Senhor são fortemente apresentadas. O Ano Litúrgico A apresenta as tentações com a versão de Mateus, que é bem expressiva. Jesus está sozinho, e é assim que deve enfrentar o Inimigo, chamado aqui de Satanás, que significa o que “desvia do caminho”. Nada melhor para desviar de um caminho do que uma proposta diferente, mais atraente, vantajosa e emocionante. É a cobiça em suas múltiplas formas que desvia o caminhante, mas não desvia Jesus de sua Missão. O Ano Litúrgico B apresenta o curto relato das tentações segundo Marcos e o Ano Litúrgico C propõe o texto de Lucas, semelhante àquele de Mateus, com uma inversão entre a segunda e terceira tentações. 

O caminho do crente é cheio de percalços, obstáculos e dificuldades. É curioso, mas alguns deixam de crer ou rejeitam as mediações da Fé alegando que, se é tão difícil ser um fiel, pela multiplicidade de dificuldades que a Fé impõe, então é melhor não crer, não seguir a Fé, deixar o Caminho. Como se isso resultasse em facilidades, em confortos imediatos e constantes. Claro que é possível encontrar isso, sim, em uma vida sem a dimensão da Fé, mas haverá também sofrimentos e dificuldades. Há alguma vida onde tudo é maravilha, êxito e sucesso sem conta e sem fim? Talvez em narrativas míticas, em caricaturas modernas de natureza ideológica sim, mas são mentiras. Deixar a Fé e sua vivência para fugir das dificuldades e encontrar somente alegrias e seguranças é tão falso como optar pela Fé e sua vivência para encontrar somente alegrias e seguranças! A experiência religiosa da Fé Cristã não é nem caminho de sucesso nem caminho de fracasso, a princípio. É um caminho de superação intenso e empenhativo, sim. Mas outros caminhos, sem a Fé, também implicam em superações, em dificuldades e perigos. O que é uma “vantagem” no caminho da Fé é que ele ainda anuncia uma plenitude absoluta em um tempo novo, que chamamos de “escatologia”. Alguns veem isso como uma alienação, nós que temos Fé, vemos como Esperança. 

Voltando ao primeiro Domingo da Quaresma, vemos Jesus enfrentando a brutal oposição ao Bem e à Verdade. O tentador, o satanás, quer tirar Jesus do Caminho, e usa contra Jesus todas as mais fortes cartas que possui, vendo a vida como um jogo a ser travado com o Homem. A vida não é um “jogo”, mas um Caminho, como temos afirmado. 

Pois bem, o tentador, sabendo da fragilidade de quem faz um jejum, privando-se de confortos e necessidades básicas, provoca Jesus como provoca toda pessoa a buscar alternativas fora do Caminho. Ele pode fazer, das pedras que encontra no caminho, pães, e com eles se alimentar. Assim é que lemos a tentação em Mateus 4,3. A solução fácil parece sempre algo lucrativo, mas é enganadora. Jesus responde com a forte afirmação: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mateus 4,4).

O tentador deseja tirar Jesus do caminho que ele deve fazer, que será o caminho de todo crente: uma escolha que deve se renovar todos os dias, pois as outras possibilidades, apresentadas “por fora”, são múltiplas e cativantes. Então, o Evangelho afirma que Jesus foi levado para o ponto mais alto do Templo de Jerusalém. Lá, o tentador é realmente maligno, pois dirige-se a Jesus com os argumentos da divindade. Se ele é o filho de Deus, então prove isso, e jogue-se abaixo, pois Deus não deixará seu filho ferir-se nas pedras (Mateus 4, 6). Tentar a Deus com as palavras de Deus é um absurdo, é a inversão da verdade, a pura mentira travestida de verdade. Jesus afirma de modo categórico: “Não tentarás o Senhor, teu Deus!” (Mateus 4,7). 

Mas o tentador tem uma carta na manga que pensa que pode ser decisiva. O encanto do poder e do domínio é por demais atraente e, então, o texto de Mateus afirma que Jesus é levado para uma alta montanha e vê o poder, a posse, o domínio de todos os povos. O tentador, que é o mentiroso por excelência, promete tudo isso, que alega ser seu, se Jesus o adorar (Mateus 4,9). Jesus conhece o profundo de Deus e o profundo do Homem, e rejeita visceralmente esta mentira e oferta, e afirma “Vai-te, Satanás, porque está escrito ‘Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto’!” (Mateus 4,10). 

Mateus, como também Lucas, afirmam que o tentador deixou a Jesus. Marcos é mais enxuto na narrativa, mas diz que Jesus foi servido pelos anjos de Deus. A narrativa forte dos Evangelhos vai além de uma descrição de fatos e aborda uma realidade humana: o desejo de sentir conforto ou prazer, de ter admiração ou poder e de possuir muito, sem limites, é algo que partilhamos e cultivamos. Os impérios, os poderes, conquistadores, ditadores e tantos ao longo dos séculos sempre quiseram dominar. Vemos agora os donos do dinheiro e do sucesso difundir seus êxitos, conquistas e riquezas nas redes sociais, nas plataformas de comunicação de massa e nos projetos políticos e ideológicos. Alguns usam o argumento da religião e apresentam-se como salvadores da humanidade. Pelo menos de uma parte da humanidade: a parte que consome, que gera lucro, votos, obediência cega e fanática. Este é o caminho proposto. Vladimir Sloviov propôs, na passagem do séc. XIX para o XX, o seu interessante texto “Breve conto do Anticristo”. Bento XVI, escrevendo como Joseph Ratzinger, em “Jesus de Nazaré”, cita este autor e sua perspicaz e, sob muitos aspectos, “profética” obra, que ele soube ver o futuro, no qual a mentira se apoia no sucesso, no argumento moderno, liberto dos limites da Fé tradicional, e que olha com confiança o mundo construído na total liberdade humana, sem limites. Apenas respeitando o “Imperador”, que aos poucos, de devoto fiel cristão se transforma em deus a ser adorado e verdade a ser vivida. 

A narrativa chamada das “Tentações de Jesus” tem pelo menos uma dupla função no Caminho Pascal: Primeiro, afirma que Jesus vive a humanidade como Homem a vive, e estava submetido aos limites que isso implica. Ele precisava discernir, saber onde estava o mal, a mentira, a fuga de Deus e onde estava o bem, a verdade e o caminho em direção a Deus. Ele soube, mas enfrentou os limites humanos. Depois, as tentações de Jesus afirmam a sua Humanidade real e verdadeira. Nos primeiros séculos de Cristianismo havia dificuldades em compreender a Jesus como verdadeiramente humano. Ele não poderia ser humano, pois teria os limites da nossa humanidade, inclusive a tentação de romper a imagem e semelhança com Deus que toda pessoa tem consigo, em si mesma. Mas Jesus fez a experiência da fragilidade, superando a tentação, o desvio do caminho, pois manteve-se fiel à Palavra de Deus, que Ele sempre citou e afirmou. 

O Caminho tem pedras, dificuldades diversas e obstáculos. Isso precisa ser superado. O primeiro Domingo da Quaresma afirma isso. 

O segundo Domingo da Quaresma é o “outro lado da moeda”, o “outro lado de Jesus” que a Igreja propõe para o caminhante. Os três Evangelhos que chamamos de “sinóticos” apresentam o relato do que se chama “Transfiguração”. Os textos estão repletos de elementos que remetem ao conhecimento intelectual e afetivo do Mistério da Pessoa e da Missão de Jesus.

Seguindo o relato de Mateus 17,1-8, Jesus, “seis dias depois”, toma consigo três dos seus Apóstolos, Pedro, Tiago e João, e sobe, a parte dos demais Apóstolos e discípulos, em uma “alta montanha”. A montanha é um local do encontro com o Sagrado, com Deus. Abraão leva seu filho Isaac para uma montanha; Moisés vai para a montanha do Sinai ou do Horeb; Elias, o Profeta, sobre também sobre o Horeb, para encontrar-se com Deus. A montanha, que a princípio, é um local alto, mas que aqui ainda é identificada como “alta”, será o palco onde a teofania acontecerá. “Subir” na montanha; presenciar a presença de uma “nuvem”; ouvir uma “voz”; “cair por terra”, e outros sinais, outras ações, são indicações de que aquele é um tempo de Deus, um momento no qual a natureza dá o espaço para o sobrenatural, o tempo deixa de existir e tudo se transforma. 

O próprio Jesus se transforma, tendo o rosto resplandecente e roupas alvíssimas, como a luz. Ele está dando a conhecer, ainda que muito brevemente, um pouco de sua divindade. É algo extraordinário, não possível de ser visto na natureza humana, mas somente no âmbito, no mundo da Fé. Algo além do tempo e da história que somente imagens comparativas podem dar a conhecer por alguém que não estava por lá, presenciando o momento. Aliás, falar de “momentos” subentende um tempo, e aqui estamos em algo além do tempo, como dissemos acima. É uma experiência sobrenatural, uma Teofania, como citado. Os Evangelhos são marcados pelas Teofanias, que nos encantam e até nos causam uma “santa inveja” em querer ter presenciado, vivenciado aqueles fatos. 

Aparecem perante Jesus, dialogando com ele, dois personagens do Antigo Testamento que têm significados além de si mesmos. Moisés, que é o sinal da Lei, da organização do Povo da Aliança. A Aliança com o Deus único, “O Senhor”, é a identidade mais fundamental deste Povo. Trata-se do Monoteísmo, a pertença a um Deus único e próximo o bastante para fazer a História com seu Povo. Moisés é o sinal de tudo isso. Depois, Elias, um Profeta que viveu no Reino do norte, Israel, no século VIII a.C. Aliás, Elias é “O Profeta”, que deixou marcas profundas na memória e imaginação do Povo da Aliança. Ele é o “protótipo” dos Profetas, a ponto de João Batista ser o seu herdeiro, tantos séculos depois. 

Assim, Moisés é o signo da Aliança Monoteísta, e Elias é o signo da Palavra desta Aliança, dita, ensinada e defendida pelos Profetas. E Jesus “no meio” destes dois, dialogando com eles. É o Antigo Testamento que dialoga com o Novo Testamento. Mas Jesus está transfigurado, e não é somente o que todos conhecem: é algo, Alguém maior. Por isso uma nuvem vem e encobre a todos. E uma voz vem da nuvem, afirmando : “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”. Claro que isso é uma teofania, aliás, uma grande teofania, que deixou marcas profundas nos três acompanhantes de Jesus. Ele foi reconhecido como o Filho Amado de Deus. 

A Quaresma nos apresenta, deste modo, no segundo Domingo, a Divindade de Jesus. Ele é humano pois também é tentado, como qualquer pessoa. Mas é divino, reconhecido como tal pelo Pai que o confirma, e pelas ações que realiza, os sinais e milagres que, além de intervir na vida de pessoas e situações, também mudam a história, fazem a diferença e indicam sua presença. 

A Catequese da Transfiguração, do segundo Domingo da Quaresma, junto à Catequese da Humanidade de Jesus, no primeiro Domingo, apresentam aos fiéis, no início do Caminho Pascal, o Mistério da Pessoa de Jesus. Os fiéis, instruídos ou educados neste Caminho, com as imagens ouvidas e imaginadas, e com a Fé despertada, a Esperança animada e a Caridade estimulada, devem aderir a este Mistério. Uma caminhada é feita, em geral, com uma companhia, e a companhia para esta Caminhada é o Senhor Jesus. 

A segunda parte: Catequeses do Batismo. O Tempo Pascal, iniciado com a Quaresma, é o Caminho com o Senhor, é a metáfora do tempo e da história com o Senhor que a Igreja  propõe aos seus fiéis. Depois de apresentar o personagem central, que é Jesus Cristo, como verdadeiro homem, pois tem as paixões e tentações humanas, e como verdadeiro Deus, pois se comunica com os Apóstolos dando a entender e a enxergar a sua divindade, a Igreja agora propõe, nos três Domingos que se seguem, três catequeses ainda sobre a Pessoa e a Missão de Jesus. 

Note-se que estas Catequeses, que são as propostas dos textos evangélicos nestes Domingos, são ligadas ao Batismo. Sim, o Batismo é o Sacramento da Páscoa, pois é o Sacramento do nascer em Cristo. O fiel que deseja entrar no Caminho de Jesus, é instruído por estas leituras dos três Domingos que se seguem, e vai adentrando no Mistério de Jesus. O Batismo é a aceitação deste caminho. Ao crente, que já está batizado, se propõe as Catequeses batismais para que ele possa fazer esta primeira parte do Caminho Pascal, na Quaresma, que depois será completada com as Catequeses pascais da Semana Santa e com as Catequeses Mistagógicas do Tempo da Páscoa. 

Vejamos as Catequeses pascais do Tempo da Quaresma como Caminho Pascal, de espiritualidade e adesão ao Mistério de Cristo. 

O terceiro Domingo da Quaresma, do Ano Litúrgico A,  apresenta, no Evangelho, o célebre episódio do encontro de Jesus com uma mulher samaritana, qual nem sabemos o nome! Trata-se do capítulo 4 do Evangelho segundo João. Sugiro que o prezado leitor acompanhe este artigo com sua Bíblia, no Evangelho segundo João capítulo quatro. Contudo, fareis transcrições dos textos bíblicos para facilitar a leitura. 

O cenário é, ao que parece, a princípio, casual. Jesus está passando pela Samaria com seus discípulos, e eles vão até a cidade para comprar víveres. Jesus permanece próximo ao poço de Jacó, citado em Gênesis. Ele está lá, simplesmente sentado, como que esperando alguém. Aberto ao encontro. Primeiro elemento do seu sinal: a abertura ao encontro. 

E chega esta mulher, uma samaritana. Vai buscar água e, sendo samaritana e mulher, não dirige a Jesus, que é judeu e homem, a palavra. Assim é que Jesus dirige a ela a palavra, pedindo-lhe água. E ela fica surpresa: “Como, sendo judeu, tu me pedes de beber, a mim que sou samaritana?” Ela está perplexa, pois algo novo aconteceu e ela subitamente encontra-se dialogando com alguém estranho, mas, possivelmente, cativante, envolvente. Jesus responde fazendo uma declaração meio fechada, anunciando-lhe o Dom de Deus. Não está claro o que ele diz e propõe, e a mulher pensa que é a água. É difícil, para alguém que não conhece o Senhor e sua comunicação, entender o que é o Caminho da Fé. Tudo fica meio confuso e, espontaneamente, a mulher pensa em um benefício imediato, a água, que ela busca. Assim também, temos milhares de pessoas que dirigem-se, motivadas por buscas não esclarecidas, a shows religiosos, encontros de alegria e exaltação, cantos, danças e outras expressões festivas, expansivas, carnavalescas, mas disfarçadas de momentos de fé, que são, apenas, momentos lúdicos, acentuadamente distantes do Mistério e muito próximos das emoções e sentimentos. É assim, pois as pessoas buscam isso. Sobretudo em nosso tempo, onde tudo vira espetáculo privado para ser observado em telinhas e determinar uma suposta espiritualidade, mas que na maioria das vezes é mais uma emoção festiva, um entretenimento, mas de cunho religioso. É a diluição da experiência com o Sagrado, a distração do Caminho, que cria a fantasia da facilidade e o engano do superficial. Mas é o que está em alta, hoje. A versão “pós-pós-moderna” de Deus e da Fé, onde tudo é alegria, emoção e sons altos, olhinhos fechados, choros e adrenalina nas alturas. Curiosamente é uma espécie de entorpecente religioso. Sim, a análise parece um pouco exagerada e até cruel. Mas o que isso está produzindo e produzirá a longo prazo é, para mim, pior. E já estamos vendo muito disso: a divisão polarizada da Igreja, o afastamento do Magistério quando ele não corresponde ao que se busca, e outros problemas que não existiam há alguns anos, e que nasceram com “pasteurização” da Fé. Por “pasteurização da Fé” entendo a experiência lúdica, festiva e superficial da Fé como pura emoção e alimento de impulsos afetivos, com estímulos psicológicos. 

Bem, o que importa é o sinal do que Jesus está sendo para a mulher samaritana e que ela vai agora descobrindo, como o crente de hoje deve descobrir e redescobrir no Caminho que está fazendo. 

A mulher dialoga com Jesus questionando a sua própria identidade, buscando entender se ele se acha maior do que Jacó, que criou aquele mesmo poço que agora os acolhe, a Jesus e a ela. Jesus afirma que aquela água é impotente para a sede humana, mas Ele tem uma água que a saciará. Segundo sinal: Jesus anuncia uma água que jorra para a vida eterna: “Aquele que bebe desta água terá sede novamente; mas quem beber da água que eu lhe darei, nunca mais terá sede. Pois a água que eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna” (João 4,13-14).

A mulher se admira e se interessa por esta água que não escasseia, e a pede. Jesus tem, assim, o seu interesse, a sua atenção. O Caminho poderá ser feito por ela, pois ela deseja algo que Jesus propõe, embora ela ainda não saiba, na realidade, o que Jesus quer lhe oferecer. É como muitos crentes que, entrando na Igreja e buscando vivenciar a Fé, veem a Igreja como uma possibilidade, mas têm uma imagem da experiência com Deus como algo previsivelmente feliz, prazeroso, que sempre resulta em sucesso e satisfação pessoal e psicológica. É a prorrogação da imagem da festa, da folia, do cultivo dos próprios desejos e da personalidade. 

Jesus precisa colocar esta mulher no Caminho, e por isso a provoca com um pedido inusitado. Ele pede que ela busque o próprio marido, ao que ela responde que não tem marido. Então Jesus afirma que ela teve cinco maridos e agora não tem mais nenhum. Esta afirmação é, no mínimo, curiosa. Será que Jesus conhece a vida da mulher e afirma que ela foi polígama ou será que ele indica algo a mais? Talvez ele acuse o povo samaritano de idolatrias reincidentes, o que pode ser expresso como “matrimônios”. De um ou outro jeito, a mulher se desperta pela identidade de Jesus. Ela se admira e afirma: “Senhor, vejo que és um profeta… Nossos pais adoraram sobre esta montanha, mas vós dizeis: é em Jerusalém que está o lugar onde é preciso adorar” (4,19-20). Está chegando o ponto central, e Jesus sabe. Por isso, afirma que nem em Jerusalém, nem naquele lugar é que se deve adorar, mas sim em “espírito e verdade”. A mulher conhece, de algum modo, este argumento. Ela busca alguma segurança para seus vazios interiores, suas incertezas, suas procuras não esclarecidas. Então ela, talvez pensativamente, com uma “nostalgia” de um desejo não realizado, afirma: “Sei que vem um Messias (que se chama Cristo). Quando ele vier, nos anunciará tudo” (versículo 25). E, finalmente, Jesus faz a sua revelação: “Sou eu, que falo contigo” (versículo 26). É o terceiro momento, o passo decisivo que transforma a mulher. 

É emocionante, na leitura, fazer um quadro mental deste momento. Jesus se revelou e a mulher entendeu. Desde a sua simplicidade, desde seus limites, mas pela palavra cativante de Jesus, ela compreende o que lhe está sendo revelado. E agora ela sai, vai até seu grupo, e anuncia a eles a possibilidade de que tenha encontrado o Cristo. Ela vislumbra, no caminho apenas iniciado, a possibilidade do achado decisivo do Senhor. 

João, que estamos lendo e analisando como texto narrativo de uma descoberta profunda, afirma duas situações interessantes. Primeiro, o retorno dos discípulos que encontram Jesus falando com a mulher e se admiram, embora nada perguntem. Então, oferecem a ele algum alimento, e ele afirma, comenta de um alimento diferente. Trata-se de fazer a vontade do Pai. E o segundo é o cenário da descoberta que os conhecidos da mulher tem a respeito de Jesus e de seu Mistério. Eles acolhem e professam que aquele homem, antes apenas anunciado e agora conhecido, é o Salvador do mundo. É a primeira vez que se ouve esta afirmação no Evangelho segundo João. 

Este terceiro Domingo que conduz para a Páscoa anuncia a possibilidade do conhecimento afetivo e intelectual do Messias, que é o Cristo, de um modo direto, como um encontro aparentemente fortuito, mas que é decisivo. Um memento pessoal, não dramático e envolvente de outros participantes, mas profundo como o poço que Jacó havia preparado, do qual tirara água e que agora serve de cenário e tema de uma procura e uma revelação. 

O quarto Domingo e a cura do cedo de nascença. Este é o quinto sinal que o Evangelho segundo João propõe. Neste Evangelho o que encontramos são “sinais”, não milagres de Jesus. A diferença, que pode parecer sutil, não é. Um milagre é um evento que, em si, tem seu sentido e significado. Jesus cura enfermidades, sacia a fome, liberta de demônios, ressuscita mortos, e sua fama vai crescendo cada vez que isso vai acontecendo. Os milagres libertam, curam, ressuscitam os que os recebem, e a fama de Jesus como taumaturgo cresce. Isso nos Evangelhos ditos sinóticos. No Evangelho segundo João encontram-se “sinais”, que, embora tenham um sentido, um resultado pontual em si mesmos, apontam para algo além deles mesmos: mostram o Mistério da Pessoa e da Missão de Jesus. Quase todos os sinais têm um efeito sobre quem os testemunha e apontam para um aspecto específico do Mistério de Jesus.  

Os sinais, com os seus efeitos, são estes: 1º sinal: 2,1-12. A água em vinho, e a Fé dos discípulos sobre Jesus. Ele transforma a realidade e realiza o “agora” de Deus na história. 2º sinal: 4,44-54. A cura do filho do funcionário real. Com a cura Ele demonstra seu poder sobre a enfermidade e estabelece uma ponte entre os que o seguem e os que estão longe. O funcionário real e sua família creem em Jesus. 3º sinal: 5,1-18. A cura do enfermo na piscina de Betesda. O enfermo é curado, mas não adere a Jesus. Antes, delata Jesus às autoridades. O Mistério de Jesus sobre as realidades humanas se abre a todos, até sobre os que estão herméticos à sua Pessoa. 4º sinal: 6,1-15. O episódio dos pães, quando Jesus alimenta milhares de pessoas. Depois, ele faz o anúncio de seu Mistério na Sinagoga de Cafarnaum anunciando o “Pão da Vida” que é ele próprio e produzindo grande rejeição. Os discípulos, chamados de “Doze”, creem em Jesus. 5º sinal: 9,1-12. O cego de nascença que passa a enxergar. O ex cego declara sua adesão de Fé em Jesus, e as autoridades judaicas rejeitam Jesus e são por ele evidenciadas na sua cegueira. 6º sinal: 11,1-54. A ressurreição de Lázaro. Marta e outros afirmam sua Fé em Jesus, mesmo assim, dividam. Jesus ressuscita Lázaro e provoca a decisão de sua morte. 7º sinal: 20,1-29. A ressurreição de Jesus. Os discípulos creem em Jesus. Tomé afirma a divindade de Jesus e este declara a bem-aventurança da Fé. 

O quinto sinal, portanto, é a cura do cego de nascença, do qual não sabemos o nome, mas sabemos que tem uma coragem maior do que os discípulos de Jesus. Tudo começa quando Jesus passa e, ao largo, está um cego que desperta a atenção dos discípulos. Eles questionam a Jesus sobre a origem desta cegueira de nascença: ele pecou ou seus pais? Jesus, curiosamente, não responde, mas aproveita a crendice de pecados que são herdados dos antepassados ou de doenças que são produzidas por males morais. Jesus aproveita o fato da cegueira de nascença para evidenciar as cegueiras culturais, cultivadas pela incapacidade de ver e enxergar. 

O cego não pede a cura, apenas Jesus se aproxima e o toca com uma série de gestos curiosos. Ordena que o rapaz vá para a piscina de Siloé e se lave lá. O cego vai, passa a ver e retorna. Mas não chega a ver Jesus. Isso acontece em um dia de sábado, o que incomoda as autoridades judaicas que questionam o ex cego. 

O diálogo vai se ampliando e envolve os pais do rapaz que não se comprometem diretamente com o que houve com o filho, pois têm medo de ser prejudicados. Afinal, ir contra as autoridades judaicas traria a exclusão da Comunidade, da Sinagoga, o que resultaria em uma espécie de vácuo social. O ex cego deve, assim, defender-se a si mesmo. E ele o faz, afirmando que alguém o curou. Ele não o conhece, não sabe que foi, mas se admira que isso tenha acontecido. E admira que muito as autoridades não compreendam o fato nem aceitem aquele que o fez. Ele declara, beirando a indignação:  “Isso é espantoso: vós não sabeis de onde ele é e, no entanto, abriu-me os olhos! Sabemos que Deus não ouve os pecadores; mas, se alguém é religioso e faz a sua vontade, a este ele escuta. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos de um cego de nascença. Se esse homem não viesse de Deus, nada poderia fazer” (9,30-32). Antes, o ex cego havia afirmado quem o havia curado como profeta (versículo 17). 

A posição do ex cego está difícil, pois ele foi curado em um dia de sábado e o homem que o curou, que certamente todos sabiam que era Jesus, menos o rapaz que fora cego, estava sendo questionado. Como ele podia fazer isso? O problema das autoridades não era, basicamente, o fato de Jesus ter curado, mas de ter feito isso no sábado. Mais marcante do que a cura de um cego de nascença é o fato de isso ter sido feito em um sábado. É uma inversão de prioridades, de importâncias fruto da visão distorcida das autoridades que não percebem sua própria incapacidade de compreender a chegada dos tempos do Messias. Ou exatamente por saber que aqueles eram os tempos do Messias e que Jesus, que curara o cego de nascença, fosse o Messias. É a dureza de coração, é a teimosia, o fechamento à Graça, à presença de Deus. 

O caminhante, o crente que se coloca em uma busca pelo Senhor, e que é ajudado pela Quaresma como parte do Caminho Pascal, também enfrenta as contradições que o caminho oferece. Quanto mais longe estiver, mais distante estará do ponte sua partida, e ainda não saberá se está ainda afastado da chegada. Ele precisa olhar a vida de modo diferente. Não basta olhar e ver. É preciso “enxergar”, o que implica uma visão interior, um ir além das aparências, conhecer de modo diferente. Nós indicamos aqui o conhecimento da mente e do afeto, o conhecimento que vem da constante busca de sentido dos fatos e de significado dos afetos. É o olhar interior, o “enxergar”, que implica este “mergulho” no âmago das pessoas, das ações, dos momentos e circunstâncias da vida. Nem sempre é um movimento fácil. Na realidade, fácil é buscar “destinos”, “manipulações de Deus” sobre a história humana. Algo como dizer que é “a vontade de Deus”, mesmo sendo algo totalmente contrário a Deus; ou querer encontrar lógica onde não há lógica, e lançar mão de argumentos frágeis, que controlam o afeto, obscurecem a mente, mas oferecem algum conforto, com uma razão forçada. Se há razão para a morte é porque estamos vivos. Se há razão para a fome é porque falta alimento. Se há razão para a cegueira é a falta de algo que produza a visão. Se há razão para o mal é porque alguém escolheu pecar, ir contra o plano de Deus. E, por que alguém pode ir contra Deus? Porque este alguém é, por ser humano, “imagem e semelhança de Deus”. Isso é, a imagem e a semelhança com a divindade, em qualquer tempo e lugar, gera possibilidades imensas para o Homem. Gera até a possibilidade de negar Deus, origem da própria realidade humana. É o risco que Deus corre: ser rejeitado pela sua criatura. Um dia, Marx afirmou que a religião era o ópio do povo. Hoje pode-se afirmar que o ópio do povo é uma religião corrompida com imagens falsas de Deus, com ofertas satisfatórias de deuses e seus afetos, de milagres com hora, efeitos e resultados econômicos já agendados. A imagem que o Homem possui de Deus é corrompida pelas falsas roupagens que a cultura oferece do próprio Homem. Ele se julga todo-poderoso, pois domina (um pouco) o átomo; controla as ondas eletromagnéticas; chegou à Lua e pretende, com muito dinheiro, chegar a Marte; coloca homens fortes no poder, para controlar a história e fazer que o paraíso de prezares e liberdades absolutas aconteça na vida, na sociedade, na novas famílias, nas novas maneiras de ser, nas novas formas de sexo, de ver o mundo. Tudo pode, só não pode deixar de poder tudo. Dostoievski teria escrito algo mais ou menos assim: “Se Deus não existe, eu sou Deus!” (Fiódor DOSTOIEVSKI. Os possessos). A Verdade não existe, o que existe é a interpretação. 

A cegueira de nascença é uma metáfora da cegueira da História, da Cultura e da Liberdade que expulsou Deus para não ter restrições, criando o desespero de não ter mais sentido e defender o próprio auto aniquilamento, com o suicídio assistido. Se me é permitido uma longa citação, recordo que Romano Guardini afirmava, em “As idades da vida”, que… 

“A angústia só apareceu quando o homem se rebelou contra sua finitude; quando não quis mais ser imagem, mas modelo, ou seja, quando pretendeu ser infinito-absoluto. Certamente permaneceu finito, mas perdeu contato com sua origem. A confiança se transformou em arrogância, a coragem em medo. A finitude, antes considerada como coisa preciosa, apresentou-se à consciência como algo questionável; a incomensurável amplidão do possível se converteu no vazio. Até que, finalmente, a negação de Deus, que hoje se observa, criou em torno da própria finitude um vácuo ameaçador, o nada, discutido até ao tédio, o espectro de Deus negado. Quem se encontra nessas condições tem motivos para se angustiar, não porque a angústia pertença à natureza da finitude, mas porque o homem, levando ao extremo a herança do pecado original, optou pela existência sem sentido da pura finitude.” (Romano GUARDINI. A aceitação de si mesmo. As idades da vida. São Paulo: Palas Athena, 2003, pág. 27)

As autoridades judaicas são as expressões precoces da época em que vivemos desde o iluminismo, mas otimizada com a “revolução cultural” e, agora, com a era da informação, da virtualidade, das redes sociais vorazes. Os vazios foram preenchidos por novos vazios. Os olhares deixaram de ser educados para enxergar, mas se concentraram apenas no ver. E ver por não mais do que alguns segundos. A atenção de alguém não treinado para tanto pode ser mantida por alguns segundos, talvez uns cinquenta segundos. É o tempo para ver algo engraçado, curioso, meio superficial, meio atraente, sensual, erótico ou pornográfico, e depois se passa para outra imagem, outra sequência de diálogos, de interações falsificadas, autoproclamadas como saborosas, coloridas, cativantes. Terminados os cinquenta segundos, outra mensagem vem, outro vídeo, outra sequência… E mais outra… E assim, passa-se uma, duas, três e tantas horas, sem uma Verdade, sem uma visão interior, sem a educação para a visão, para o enxergar, ir ao interior, olhar por dentro, contemplar. 

Voltando ao ex cego, sabemos que ele é expulso da Sinagoga, e agora deve viver por conta. Nem seus pais estão ligados a ele, pois ele passou a ser uma espécie de pária. Afinal, ele ousou ir contra o que a maioria fala, procura e vê. Mas não enxerga, não adentra, apenas sente a emoção, que passa e precisa ser, novamente, estimulada. O ex cego está andando por Jerusalém, está caminhando. O crente caminha, vai fazendo estrada, alimentando esperanças com experiências múltiplas. Ele vai conhecendo os limites humanos, sociais, tecnológicos. Ele começa a perceber as fragilidades do que se apresenta forte, mas cujo prazo de validade é curto, pois precisa ser trocado. Os afetos, os sentimentos, os amores são passageiros, pois são superficiais. Precisam ser trocados por novas experiências, novos relacionamentos que, às vezes, parecem novos entorpecentes, que agradam o psiquismo e, ao mesmo tempo, o destroem. E isso é “liberdade”! 

Jesus se aproxima do ex cego e pergunta se ele crê no Filho do Homem. Este é um título que diz, mas esconde o que quer dizer. Um título que exige mais uma dose de Fé, de visão interior, de enxergar. O ex cego parece que está, agora, enxergando, e pergunta a Jesus quem é este “Filho do Homem”, para que ele possa nele crer. Ele está predisposto a crer, e pede para conhecer. Então Jesus se apresenta. “Tu o estás vendo, é quem fala contigo”. Exclamou ele: “Creio, Senhor!” E prostrou-se diante dele. (9,37-38). 

Depois desta dupla declaração de Fé, comprometedora e tremendamente arriscada da parte do ex cego que agora enxerga, Jesus afirma que veio para um “discernimento”, que é, sabemos, a capacidade de enxergar no interior, sem os limites que gostos e impressões superficiais produzem. As autoridades, que ouvem a afirmação de Jesus, se incomodam com isso, sentindo-se acusadas de pecado, pois estariam com os olhos fechados. Jesus confirma: sim, estão no pecado. Afinal, eles afirmam seu modo limitado e corrompido de ver, e não querem enxergar. Então, estão no erro! 

O caminhante tem de discernir a todo momento. O caminho é cultural, político, social, sexual, científico, comportamental… A todo momento, em múltiplas circunstâncias, sob vários modelos e estímulos, o crente que caminha deve olhar, observar e enxergar. Uma simples, mas profunda frase, de Paul-Eugène Charbonneau sempre me vem à mente. “A revelação que a pessoa de Cristo nos traz é a mesma que nos garante o nosso crescimento” (Paulo-Eugène CHARBONNEAU. O Homem à procura de Deus. São Paulo: EPU, 1981, pág. 494). Interpreto isso como sendo a capacidade de enxergar através de Cristo é o que me permite enxergar o que está além dele e mesmo que provém dele. Neste ponto, no quarto Domingo da Quaresma, o caminhante do Caminho Pascal está bem-preparado para o passo seguinte. O drama da morte e da vida. 

O quinto Domingo da Caminhada Pascal. Chegamos ao Domingo do sexto sinal de Jesus, a ressurreição de Lázaro, em João 11,1-54. É oportuno, inicialmente, explicar que a ressurreição pela qual Lázaro passa neste dramático episódio não é a ressurreição final, escatológica, que inaugura os novos tempos, além do próprio Tempo e da História. É uma ressurreição no tempo presente da ação, na história de quem a presenciou e testemunhou. 

Os Evangelhos sinóticos propõem relatos de ressurreição de mortos. Temos o célebre relato do filho da viúva de Nain, em Lucas 7,11-17; a ressurreição da filha de Jairo, em Marcos 5,21-43 e em Mateus 9,18-23, com a cura da hemorroíssa. Temos relatos de intervenções de Jesus sobre a natureza que beiram a ressurreição, pois acontecem sob pessoas e situações de morte, como curas de cegos e curas ou purificações de leprosos. O caso é que, na tradição judaica, um dos sinais de que os tempos do Messias seria a ressurreição dos mortos. Em 1 Reis 17,17-24 Elias ressuscita um menino, em Sarepta; em 2 Reis 4,32-37 vemos o relato de outra ressurreição, feita pela intervenção de outro Profeta, Eliseu. Estes atos de poder sobre a morte relacionam os Profetas ao único que tem poder sobre a vida, que é Deus. O Messias, quando viesse, teria o mesmo poder. Este é o sinal do Messias, dos tempos de sua presença. Em João, no capítulo onze, Jesus é chamado para ver seu amigo Lázaro, que está gravemente enfermo. Ele permanece onde está por um tempo, e somente depois parte. Chegando em Betânia, encontra Lázaro morto. 

Este quinto Domingo da Quaresma chama a atenção do peregrino do Caminho Pascal. Ele é levado a olhar no horizonte do que é mais próprio e preciso ao Homem: sua vida. O Homem morre, e isso é chocante, às vezes cruel. Julga-se Deus por isso, como se julga também os ditadores e odiosos opressores da História. Julga-se a doença, a enfermidade, os acidentes, os provocadores de acidentes e as falhas da tecnologia que os provocam. Mas sempre, no final das contas, é Deus que é julgado. Ele é julgado e condenado. Só não pode ser executado. Ou talvez até possa, pois a condenação de Deus é a exclusão de sua presença na sociedade, na história, na cultura. Ou a troca do Deus Revelado por Jesus Cristo pelo Deus produzido pela sociedade do consumo, pelas modas de novas espiritualidades, cheias de predisposições e destinos, chaves de compreensão dos tempos e lugares, que no fundo pressupõem que Deus “joga dados”, como negaria Albert Einstein. Ele não joga com o Homem. É ele, o Homem, que joga consigo, com o outro e com o próprio Deus. Afinal, o Homem é “imagem e semelhança” de Deus, o que lhe dá uma possibilidade admirável de ser, de existir e mesmo de errar. 

Neste Domingo, Jesus intervém de modo a não deixar dúvidas a respeito de sua identidade, do caminho que propõe. Ele dialoga com a irmã de Lázaro de modo intenso, visceral, passional. Primeiro, ela, Marta, ao receber Jesus em sua casa, afirma: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. Mas ainda agora sei que tudo o que pedires a Deus, ele te concederá” (João 11,21-22). Jesus afirma e anuncia a ressurreição, e Marta entende que ele fala da ressurreição no “Escaton”, fora dos tempos e da história. Jesus anuncia uma ressurreição no tempo, no agora, na história. Ele diz: “Eu sou a ressurreição. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. “E quem vive e crê em mim jamais morrerá. Crês nisso?” (versículos 25-26). Marta afirma sua Fé. E Jesus dirige-se para o sepulcro onde está seu falecido amigo. Ao chegar lá, manda que tirem a tampa, a pedra que lacra o sepulcro. Marta, que acabara de declarar sua Fé, duvida, e expressa sua dúvida com a constatação do período da morte do irmão. Jesus a repreende: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?” (versículo 40). E dirige-se ao sepulcro, agora aberto, ordenando: “Lázaro: vem para fora!” (versículo 43). E João continua: “O morto saiu, com os pés e mãos enfaixados e com o rosto recoberto com um sudário. Jesus lhes disse: ‘Desatai-o e deixai-o ir embora’” (versículo 44). 

A ressurreição de Lázaro é o sinal do caminhante da Quaresma. O caminho que se faz é de superação, de transformação. Um caminho de aceitação exige mudanças, enfrentamentos. Não é possível iniciar uma caminhada sem estar ciente de que obstáculos aparecerão, dores incomodarão, incertezas cobrarão e medos surgirão. Sim, mas é preciso caminhar. 

A Igreja nos propõe estes cinco Domingos como o caminho da Páscoa. Não é possível chegar à Páscoa sem compreender que ela implica caminhar. O crente que caminha e faz o caminho pascal está preparado, pelo menos teoricamente, para os desafios da vida. Claro, para isso é preciso o dom da Fé, que não é um simples cálculo das probabilidades ou um conjunto de afetos. A compreensão afetiva e intelectiva disso exige um tempo de concentração, de meditação. Não é possível sem uma parada e um olhar. É preciso reaprender a ver, para olhar e enxergar, como temos insistido aqui. 

No próximo artigo veremos o Caminho da Páscoa na Semana Santa, com os momentos da glória do Senhor. Mas, para chega lá, é preciso enxergar algo aqui, que tentamos evidenciar. Note-se que escolhemos, por questões de método, apenas os textos dos Evangelhos Dominicais, deixando as leituras e os Salmos, que são partes essenciais da Liturgia da Palavra. 

Mauro Negro, OSJ, é biblista e professor de teologia na PUC-SP.

 

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