Ser um livro para os outros
Irmã Argentina Paulo, moçambicana, relata experiência junto ao povo yanomami, na Missão Catrimani, em Roraima, Brasil.
A vida é um projeto de Deus que nos chama e nos envia como instrumentos do seu amor. Em resposta ao chamado de Deus, como religiosa consagrada, irmã Argentina Paulo, missionária da Consolata, partilha a sua experiência.
Argentina é natural de Montepuez, Diocese de Pemba, província de Cabo Delgado, Moçambique. Atualmente, ela está em missão no Brasil, especificamente na cidade de São Paulo, depois de três anos no coração da floresta amazônica, Missão Catrimani, no meio do povo yanomami. Em 2022, a religiosa colocou pela primeira vez os seus pés nas terras do povo indígena. Ela, sendo uma irmã jovem e pela primeira vez numa realidade diferente nos costumes, na cultura, na língua e no modo de pensar do povo, sentiu-se desafiada, pois para ela, tudo era diferente.
A Missão Catrimani é composta, além da equipe missionária (os padres e as irmãs da Consolata), que comunga o mesmo espaço, por uma equipe de saúde.
Na Missão Catrimani, a missionária Argentina aprendeu a conviver com várias culturas e povos de diferentes nacionalidades, todos movidos pelo amor a Jesus Cristo e pelo dom da vocação recebida de Deus.

A religiosa testemunha que “o povo yanomami é um povo acolhedor, alegre, um povo que escuta e observa muito, um povo que não tem pressa para dar uma resposta. No início não foi fácil para mim, mas o que me ajudou a entrar um pouco na realidade foi a ajuda das minhas irmãs Mary Agnes, Suzana e Lígia e os missionários da Consolata. Foi difícil ver pessoas que vivem sem roupa (eu dizia: estou no Jardim do Éden). Quando cheguei, queria voltar para a cidade com o mesmo avião! Porém, dentro de mim repetia a frase: eis-me aqui, Senhor, envia-me, e outra que dizia: não temas…!”
Foi nessa Missão que a irmã Argentina aprendeu a ser uma semente de esperança, na qual Deus transforma a vida de cada ser humano através da escuta e do diálogo com o povo; ela sentia-se de fato um instrumento do amor de Deus no meio do povo yanomami, procurando ser uma presença consoladora, vivendo a Missão com simplicidade e cheia de alegria e amor.
Em momentos de crise e de vontade de um desabafo, irmã Argentina dirigia-se à Capela e chorava diante do Crucificado. A religiosa confirma: “Quantas vezes eu recebi consolações e repetia a frase do Pai Fundador ‘nunc coepe’ (comece agora). Para mim falar da minha experiência da Missão Catrimani, digo que foi uma graça que recebi de Deus; pois cada missão tem seus ensinamentos, então, essa missão que se encontra no meio da floresta para mim transformou a minha vida em todos os sentidos. Agradeço à minha família religiosa por me confiar a viver a missão onde o Pai Fundador realizou o milagre pelo qual foi elevado à santidade”.
Para terminar o relato, dentre várias experiências, aquilo que constitui a marca indelével, irmã Argentina afirma: “vivi aventuras fortes que marcaram a minha vida. Lembro que muitas vezes ia às comunidades, nas noites longas eu rezava o terço, pois o povo não é cristão, mas acredita em Deus. Aprendi a ser uma presença ativa, contagiante e a ser fonte de esperança onde tudo parece não ter vida. Coloquei os meus pés no chão e toquei a vida desse povo humilde. Quando voltávamos à pastoral, partilhava as experiências com as minhas irmãs e a equipe missionária. Posso dizer que éramos como um livro para os outros”. A missionária da Consolata sustenta: “a Missão não é fazer grandes obras, mas sim estar com o povo”.