112ª Jornada Mundial do Migrante e do Refugiado
“Não são números, são crianças (mas nós as contamos em um Excel mesmo assim)”.
Lá estão outra vez as fotos de capa: diplomatas sorridentes apertando mãos, comunicados oficiais repletos de “profunda preocupação” e conferências internacionais onde os discursos sobre a infância duram mais do que os fundos orçamentários. Enquanto isso, na vida real, o Papa teve que voltar a publicar sua mensagem para o dia da Jornada Mundial do Migrante e do Refugiado, comemorado em 27 de setembro, lembrando algo absurdamente básico: as meninas, meninos e adolescentes em deslocamento não são um problema logístico nem uma porcentagem incômoda na dotação orçamentária, mas seres humanos com nome, sobrenome e uma dignidade que a burocracia insiste em não tramitar.
Sob o lema “Mesmo um só destes pequeninos”, o chamado pontifício desarmou com elegância a hipocrisia global. O Papa enfatiza que os menores refugiados e itinerantes não são meras estatísticas, mas portadores de uma dignidade intrínseca que exige proteção, escuta ativa e ternura comunitária. Fascina-nos nos escandalizarmos com as crises migratórias nas notícias da noite, mas nos incomoda profundamente quando essas mesmas crises pedem uma vaga na escola do bairro ou vacinas no posto de saúde local.
Para superar essa “cultura do descarte”, a mensagem do Santo Padre exorta a facilitar a reunificação familiar, garantir o acesso à educação e defender sem hesitações os direitos fundamentais da infância, recordando que cada menor que cruza uma fronteira carrega consigo o rosto do próprio Cristo peregrino.
A odisseia em solo brasileiro: Entre a lei no papel e a vida na lama
O chamado pontifício ganha um dramatismo visceral na realidade brasileira. O Brasil costuma se orgulhar de suas leis migratórias progressistas e de suas operações operacionais modelo na fronteira norte. E sim, no papel tudo soa fabuloso, até que a gente desce ao terreno e tenta explicar a teoria para uma criança que está sem comer há dois dias, esperando o milagre em um assentamento sem sombra.
- Os “invisíveis” que preenchem planilhas: As agências internacionais contam aos milhares os menores venezuelanos e indígenas que cruzam a fronteira. Somente em atendimentos a menores não acompanhados, separados de suas famílias ou sem documentação em postos de fronteira, os registros superam 4.000 casos. Um verdadeiro recorde administrativo para crianças que só buscavam não perder seus pais pelo caminho.
- Escolas de papel, abrigos de verdade: Nas estruturas de abrigos e assentamentos informais em estados fronteiriços como Roraima, milhares de crianças dependem de redes humanitárias para água potável e apoio psicossocial. O conceito de “direito à educação” muitas vezes se traduz em um par de horas por semana em uma tenda sob 30 graus à sombra. Dizemos que “são o futuro”, mas lhes negamos o caderno no presente.
- A arte de olhar para o outro lado: Fora dos centros urbanos integrados, os menores em rotas de trânsito correm perigo constante de violência sexual, exploração laboral e interrupção escolar. Se uma criança consegue vaga e atendimento, celebramos a integração; se fica presa no trabalho informal ou nas margens da cidade, preferimos culpar “a complexidade do fluxo migratório”. A culpa, como sempre, não é de ninguém.
E a missão? Deixar de colecionar aplausos e começar a mover as cadeiras
Acompanhar a infância migrante não é apenas uma crise assistencial, mas um premente chamado teológico. Não consiste em posar para a foto entregando um pacote de macarrão uma vez por ano para acalmar a consciência, nem em organizar seminários sobre a solidariedade enquanto as portas do templo permanecem fechadas fora do horário da missa.
Transformar a acolhida em uma prática viva devolve à Igreja sua vocação itinerante e renovadora. Se o trabalho missionário não serve para defender estas crianças da exploração, para exigir das autoridades que a burocracia não seja mais rápida do que a caridade, ou para abrir um espaço real para elas em nossas comunidades, então não estamos fazendo missão: estamos fazendo relações públicas com o Evangelho. Proteger "mesmo um só destes pequeninos" não é um slogan fofo para um santinho, é a única prova válida de que ainda nos resta um resquício de fé não diplomática.
Juan Carlos Greco, imc, é missionário em Roraima, trabalhando com os indígenas Warao.