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Editorial

A Palavra que se encarna no encontro, na justiça e na acolhida

A edição de setembro da Revista Missões nos convida a entrar em um território onde a fé se encontra com as realidades mais urgentes do nosso tempo. A Palavra, o encontro, a justiça, a acolhida e o cuidado com a vida atravessam as páginas desta edição como diferentes expressões de uma mesma missão: anunciar o Evangelho deixando que ele toque a história concreta das pessoas e dos povos.

Setembro nos oferece, de modo especial, a oportunidade de voltar o olhar para a Palavra de Deus. Celebrado tradicionalmente como o Mês da Bíblia, este período pode ser vivido como um tempo de reencontro com as Escrituras e, ao mesmo tempo, com a própria vida. A Palavra não permanece distante ou encerrada em um texto: ela atravessa a história, ilumina escolhas, provoca perguntas e nos ajuda a reconhecer Deus também nas realidades concretas que nos cercam.

Para o ano de 2026, a proposta de estudo da CNBB é o Livro de Daniel. O lema inspirador para este estudo é “Seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14). O texto base, subsídio preparado para orientar a celebração e vivência, oferece aprofundamento bíblico, contextualização histórica e pistas pastorais que ajudam a compreender a fidelidade a Deus em tempos de desafios, fortalecendo a esperança e a perseverança do povo de Deus.

A escuta da Palavra nos coloca diante de histórias de encontros, conflitos, esperanças, travessias e recomeços. Experiências que continuam ecoando no presente e nos ajudam a compreender que a fé não se separa da vida. A Palavra que acolhemos é também aquela que nos chama a olhar para o outro, a perceber suas dores, a reconhecer sua dignidade e a nos deixar transformar pelos desafios do nosso tempo.

Celebrar a Bíblia, portanto, é mais do que recordar um texto fundamental para a fé cristã. É permitir que a Palavra nos interpele e nos conduza para fora de nós mesmos. É deixar que ela ganhe rosto, história e concretude nos encontros cotidianos, especialmente onde a vida se encontra mais ameaçada, esquecida ou ferida. É nesse movimento que a Palavra se torna caminho, compromisso e esperança.

A mística do encontro e a missão próxima

A Palavra se torna vida quando nos dispomos a sair de nós mesmos. A missão começa muitas vezes nesse gesto aparentemente simples de aproximar-se, estar presente, escutar e caminhar junto. Encontrar o outro significa reconhecer sua história antes de qualquer julgamento, acolher suas diferenças e superar as barreiras de preconceito, medo e indiferença que tantas vezes nos afastam.

O próprio Jesus fez do encontro uma expressão essencial de sua missão. Entrou nas casas, aproximou-se dos que eram considerados distantes, escutou suas histórias e tocou suas dores. Sua presença revelava que anunciar o Reino significava também restituir dignidade, criar vínculos e abrir caminhos de vida.

Essa proximidade também atravessa a espiritualidade missionária de São José Allamano, fundador dos Missionários da Consolata. Em seu modo de compreender a missão, o anúncio do Evangelho não podia ser separado do cuidado com a pessoa e com sua realidade. Evangelizar significava caminhar com os povos, contribuir para seu desenvolvimento e reconhecer neles protagonistas de sua própria história.

É uma compreensão de missão que continua atual. Em um mundo marcado por distâncias, polarizações e tantas formas de exclusão, aproximar-se do outro pode ser um verdadeiro gesto profético. A missão começa quando deixamos de olhar para as pessoas de longe e nos permitimos caminhar ao seu lado.

O grito dos excluídos e a urgência de cuidar da vida

Essa proximidade nos conduz inevitavelmente aos lugares onde a vida clama por justiça. Durante a Semana da Pátria, o Grito dos Excluídos e Excluídas, em sua 32ª edição, renova o apelo para que a vida esteja em primeiro lugar. Seu lema deste ano — “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!” — nos recorda que cidadania não pode ser reduzida à contemplação passiva da realidade.

Há situações diante das quais não basta permanecer indiferente. A violência contra as mulheres, a falta de moradia, os conflitos no campo, as ameaças aos povos indígenas e tantas outras formas de exclusão revelam que ainda há vidas que permanecem expostas à violência e à invisibilidade.

Os números podem nos ajudar a compreender a dimensão dessas feridas, mas não conseguem traduzir inteiramente o sofrimento que existe por trás de cada estatística. Cada morte tem um rosto. Cada família sem moradia carrega uma história. Cada comunidade ameaçada pela violência guarda sonhos, vínculos e esperanças. É diante dessas histórias que a fé é chamada a se tornar responsabilidade.

Também não podemos separar a justiça social do cuidado com a Casa Comum. A exploração da terra, da água e dos recursos naturais atinge de maneira especial aqueles que já vivem em situações de maior vulnerabilidade. A crise ecológica, portanto, não é apenas uma questão ambiental: é também uma questão humana, social e espiritual.

O desafio de uma conversão ecológica passa por nossas escolhas, pelo modo como consumimos e pelo modo como compreendemos nossa relação com a criação. Cuidar da vida significa reconhecer que não somos donos absolutos da Terra, mas parte de uma grande teia da qual dependemos e pela qual também somos responsáveis.

Acolhida sem fronteiras aos pequenos peregrinos

Entre aqueles que mais nos interpelam estão os que vivem a experiência da migração e do refúgio. No dia 27 de setembro, a Igreja celebra a 112ª Jornada Mundial do Migrante e do Refugiado, sob o lema “Mesmo um só destes pequeninos”. A celebração nos convida a olhar de maneira especial para crianças e adolescentes que atravessam fronteiras em busca de proteção, segurança e novas possibilidades de vida.

Por trás dos números da migração existem histórias que não podem ser reduzidas a estatísticas. Há crianças que caminham sem a companhia de seus pais, famílias que deixam para trás suas casas e comunidades inteiras que carregam as marcas da pobreza, da violência, das guerras e da falta de perspectivas.

Também no Brasil essa realidade se apresenta de forma concreta, especialmente nas regiões de fronteira. O drama dos migrantes nos recorda que acolher não significa apenas oferecer assistência emergencial. Significa reconhecer dignidade, proteger direitos, criar possibilidades e permitir que aqueles que chegam possam reconstruir suas vidas.

Para a missão cristã, esse compromisso é particularmente exigente. Não basta aproximar-se de quem sofre se não estivermos dispostos a defender sua dignidade. O acolhimento verdadeiro não transforma o outro em objeto de caridade, mas reconhece nele um irmão, uma irmã, alguém que também tem voz, história, direitos e muito a oferecer.

A Igreja como tenda do encontro

Talvez seja justamente nesse horizonte que possamos compreender a imagem da Tenda do Encontro, apresentada pelas novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2026-2032).

A imagem da tenda carrega uma beleza particular. Ela evoca um povo que caminha, que não se instala definitivamente, que permanece aberto ao caminho e ao encontro. Uma tenda não é uma fortaleza. Ela pode ser levantada e desmontada, atravessa diferentes paisagens e permanece aberta àqueles que chegam.

É uma imagem que nos provoca a pensar a Igreja não como um espaço fechado sobre si mesmo, mas como uma presença capaz de acolher, escutar e acompanhar. Uma Igreja que não espera que todos cheguem até ela, mas que também se dispõe a sair ao encontro daqueles que vivem nas margens, nas periferias e nas muitas tendas improvisadas da existência.

A Palavra que se fez carne e armou sua tenda entre nós continua nos convidando a fazer o mesmo: aproximar-nos, escutar, acolher e caminhar. Talvez essa seja uma das grandes provocações desta edição: compreender que a missão não acontece apenas em lugares distantes. Ela começa onde estamos, nas relações que construímos, nas pessoas que encontramos e nas escolhas que fazemos diante das dores do mundo.

Que a leitura desta edição de setembro nos ajude a alargar nossas tendas e a ampliar nosso olhar. Que a Palavra de Deus seja para nós fonte de esperança e discernimento. Que os gritos dos excluídos não encontrem em nós indiferença. Que os pequenos peregrinos encontrem portas abertas. E que, no encontro com cada pessoa, possamos descobrir novamente que a missão não é apenas aquilo que fazemos, mas também aquilo que nos tornamos quando permitimos que o Evangelho transforme nossa maneira de olhar, escutar e caminhar.

Que esta edição nos ajude, enfim, a fazer da vida uma tenda aberta: um lugar onde a Palavra encontra a realidade, onde a justiça encontra a esperança e onde cada pessoa possa sentir-se verdadeiramente acolhida.

Capa da Edição

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