Vivendo a missão e aprendendo a ser missionária
Missionária da Consolata relata como foi o seu chamado e seu trabalho na Argentina.
Meu nome é Hannah Martha Wambui Ndungu. Sou do Quênia. Tenho 34 anos de profissão religiosa na Congregação das Irmãs Missionárias da Consolata. Há 27 anos estou na Argentina como missionária ad gentes.
É muito verdadeira para mim - e para todas as vocações - a Palavra de Deus dirigida ao profeta Jeremias: "Antes de te formar no ventre materno, eu te conhecia; antes que saísses do seio materno, eu te consagrei e te constituí profeta das nações" (Jr 1,5-6).
Deus nos chama desde toda a eternidade e, em determinado momento da vida, faz-nos tomar consciência desse chamado e dessa missão.
Eu tinha 11 anos quando, pela primeira vez, tomei consciência do chamado de Deus para a vida religiosa. Meu pároco havia convidado três irmãs para darem seu testemunho em minha comunidade. Havia algo nelas que me chamou profundamente a atenção, e eu disse para mim mesma: "Quando eu crescer, quero ser irmã como elas." Naquele momento, porém, eu ainda não sabia tudo o que isso significava.
Aos 16 anos, por meio de uma colega da escola secundária, tive a oportunidade de ter em mãos um pequeno livro que apresentava todas as congregações femininas existentes no Quênia naquela época. Foi nele que li, pela primeira vez, uma breve descrição do carisma das Missionárias da Consolata. Dizia que seu carisma consistia em: "Fazer Jesus conhecido por aqueles que ainda não O conhecem, especialmente os mais pobres, os mais frágeis, os afastados, os marginalizados e os discriminados."
Essa descrição tocou profundamente o meu coração. Identifiquei-me imediatamente com o desejo de tornar Jesus conhecido daqueles que ainda não O conheciam.
Somente mais tarde, durante a formação religiosa, compreendi que, antes de tudo, era eu quem precisava conhecer e amar Jesus, pois ninguém pode dar aquilo que não possui. Não podemos apresentar alguém que nós mesmos não conhecemos.
Por isso, para mim, ser missionária significou, antes de tudo, um itinerário espiritual de busca, de encontro e de relacionamento com Jesus, que foi crescendo dia após dia. É o próprio Deus quem, no tempo oportuno, revela seu Filho em nós, como afirma São Paulo (cf. Gl 1,15-16).
Depois de uma longa busca pela vontade de Deus, que durou sete anos, mantive contato com as Pequenas Irmãs de Jesus, inspiradas por Charles de Foucauld, outra congregação que também conheci por meio daquele mesmo livreto e pela qual sentia grande admiração. Entretanto, Deus mudou completamente os meus planos, porque "os seus caminhos não são os nossos caminhos" (cf. Is 55,8-9).
O carisma dessa congregação era seguir a vida escondida de Jesus durante os 30 anos vividos em Nazaré. Eu já estava prestes a ingressar nela quando, durante um momento de adoração, sozinha na capela, Jesus fez ressoar em meu coração uma pergunta: "Você tem certeza de que esta é a sua vocação?"
A partir daquele momento, entrei numa profunda crise vocacional que durou dez meses. Ela terminou durante uma novena de Pentecostes, quando senti claramente que Deus me chamava para ser Missionária da Consolata, seguindo Jesus em sua dimensão missionária.

Grande desafio
Foi um enorme desafio para mim, porque eu era uma pessoa muito tímida e insegura. Muitas vezes minha desculpa era a mesma do profeta Jeremias: "Ah! Senhor Deus, eu não sei falar..." (cf. Jr 1,6). Falar em público era extremamente difícil para mim.
Após um período de discernimento vocacional, ingressei na Congregação em 1989, aos 24 anos. Assim começou minha grande aventura com o Senhor nesta família religiosa.
Os três primeiros anos de formação aconteceram no Quênia. Depois, por circunstâncias imprevistas relacionadas ao processo formativo, fui enviada antes do previsto para a Itália, onde permaneci durante oito anos.
Ao longo desse caminho fui conhecendo Jesus cada vez mais, por meio dos acontecimentos da vida, das pessoas que o Senhor foi colocando em meu caminho e, sobretudo, através da oração e da meditação da Palavra de Deus.
De maneira especial, minha experiência no noviciado - etapa fundamental da formação religiosa - marcou profundamente a minha vida. Vivi uma intensa crise existencial, durante a qual fui percebendo, pouco a pouco, que havia construído minha vida voltada apenas para o exterior, sobre areia. O Senhor me convidava a entrar dentro de mim mesma para descobrir minha verdadeira identidade de filha de Deus (cf. Mt 7,24-27).
Foi um tempo de purificação, mas também de um encontro profundo com o Senhor, que marcou um verdadeiro antes e depois em minha vida. Foi como reviver a experiência do filho pródigo, acolhido pelo amor misericordioso do Pai (cf. Lc 15,11-32); foi um novo nascimento, uma redescoberta do meu Batismo. Foi encontrar, em minha própria vida, o tesouro escondido e a pérola de grande valor (cf. Mt 13,44-46).
Desde então, o grande desafio tem sido vender tudo aquilo a que ainda permaneço apegada para adquirir esse campo e possuir o tesouro. É procurar alcançar Aquele que primeiro me alcançou, como diz São Paulo (cf. Fl 3,12). Este é o caminho cotidiano da conversão.
A partir dessa experiência, fui descobrindo e compreendendo gradualmente minha vocação e missão como Missionária da Consolata: consolada para consolar, a exemplo de Maria. É a experiência do Deus misericordioso, Pai de toda consolação, que nos conforta em todas as nossas tribulações para que possamos consolar aqueles que passam pelas mesmas lutas que nós vivemos (cf. 2Cor 1,3-4).
Por isso, a missão nasce do coração. Ela é fruto de um processo gradual de conversão e de identificação com Jesus, assumindo seus sentimentos, suas atitudes e seu modo de viver. A missão não consiste apenas em sair de um lugar geográfico para outro, mas, sobretudo, em sair de si mesmo ao encontro dos irmãos e irmãs para os quais Deus nos envia.

Na Argentina
Ao concluir meus estudos na Itália, em 1999, fui destinada à Argentina. Foi uma grande surpresa, porque jamais havia imaginado ser missionária neste país. Meu sonho era ir para o Brasil trabalhar com os povos indígenas, realidade que eu conhecia por fotografias e pelos relatos das Missionárias da Consolata do Quênia que já atuavam ali. No entanto, fui enviada para a Argentina, sem saber que aqui também havia povos indígenas.
No dia 28 de dezembro de 1999, cheguei ao país, após passar seis meses em minha terra natal. Permaneci cerca de um ano na Província de Buenos Aires aprendendo a língua espanhola e visitando, a partir dali, as diversas comunidades da Congregação existentes no país.
Seis meses depois, quando ainda falava pouco espanhol, visitei pela primeira vez Comandancia Frías, uma de nossas comunidades situada no Impenetrável Chaqueño, onde trabalhamos junto aos povos indígenas e às comunidades crioulas.
Lembro-me de que me senti profundamente feliz por estar ali. Tinha a impressão de que aquela era exatamente a realidade que eu havia sonhado quando, aos 16 anos, li a descrição do carisma das Missionárias da Consolata e guardei no coração o desejo: "Quem dera um dia me enviassem para um lugar assim." E esse desejo coincidiu com o projeto de Deus.
No início de 2001, fui enviada para Comandancia Frías como meu primeiro campo missionário. Podem imaginar a minha alegria. Vivi ali durante seis anos, numa experiência belíssima e inesquecível.
A primeira atitude que tomei ao chegar foi procurar conhecer profundamente a realidade local. Isso aconteceu pouco a pouco, sobretudo por meio das visitas às famílias, tanto indígenas quanto crioulas.
Na pastoral indígena trabalhávamos em parceria com a ENDEPA (Equipe Nacional de Pastoral Aborígene), que promovia espaços de formação, encontros e intercâmbio com representantes dos povos indígenas de toda a Província do Chaco e também de outras regiões do país.
Foi graças a esses encontros e ao convívio cotidiano com as comunidades indígenas que fui conhecendo sua realidade, sua cultura, seu idioma, sua maneira de ser e de se expressar, seus valores, sua sabedoria, sua espiritualidade, seus sonhos e suas lutas, especialmente a luta pelos direitos humanos e pelos direitos garantidos pela Constituição.
Foi muito interessante perceber que, à medida que conhecia e valorizava sua cultura e espiritualidade, também fortalecia minha própria identidade africana. Assim compreendi que ser missionária significa tanto oferecer quanto receber. A missão é um caminho de acompanhamento mútuo, uma troca de dons.
A riqueza do irmão enriquece também quem evangeliza. No fim das contas, temos a impressão de receber muito mais do que damos.
Também foi muito enriquecedor colaborar com outras instituições e com membros não indígenas — inclusive alguns pastores de outras Igrejas cristãs — que, assim como nós, acompanhavam os povos indígenas em suas lutas na Província do Chaco.
Esse trabalho proporcionava um belo espaço de diálogo ecumênico e de fraternidade no âmbito social.Todos os anos, no mês de setembro, realizávamos um encontro ecumênico para partilhar nossa experiência de fé. Guardo no coração lembranças muito bonitas desses encontros. Essa experiência ajudou-me a compreender a missão como abertura ao diálogo ecumênico, inter-religioso e intercultural. Somos todos irmãos.
Juntamente com minha comunidade, promovíamos também projetos voltados ao desenvolvimento humano das comunidades indígenas, como criação de caprinos, apicultura e artesanato. Além disso, acompanhávamos iniciativas nas áreas da educação e da saúde, pois a missão também consiste em promover a dignidade humana de nossos irmãos e irmãs.

Ao mesmo tempo, desenvolvíamos a pastoral junto às comunidades crioulas.
Com elas também precisei conhecer sua cultura, suas tradições e sua religiosidade popular. Aos poucos foi surgindo uma relação muito bonita de amizade e confiança, marcada pela partilha da vida e pelo acompanhamento de suas lutas, sobretudo no âmbito familiar.
Percebi uma grande necessidade de escuta e de acompanhamento pessoal por parte das pessoas que espontaneamente procuravam alguém com quem conversar. Trabalhei com elas na catequese e nas celebrações da Palavra.
Um dos maiores desafios que encontrei em Comandancia Frías foi a relação entre indígenas e crioulos, marcada pela discriminação. Era uma realidade muito dolorosa: dois povos vivendo lado a lado, mas separados. Isso me impactou profundamente. Desde o início senti o chamado para ser instrumento de reconciliação e de comunhão. Esse também era o objetivo de nossa comunidade religiosa: ser testemunha e construtora da comunhão.
Nossa própria vida comunitária já expressava esse ideal, pois éramos quatro irmãs provenientes de quatro países diferentes, pertencentes a três continentes.
Nosso testemunho de convivência, apesar das diferenças de nacionalidade, cultura e língua, era significativo tanto para os indígenas quanto para os crioulos.
Nos últimos anos de minha permanência ali, pude perceber alguns passos de aproximação entre os dois povos, embora ainda haja um longo caminho a percorrer para que floresça uma convivência verdadeiramente fraterna.
Em 2007, fui transferida para Palo Santo, na Província de Formosa, para atuar na animação missionária vocacional.
Na paróquia, colaborava na formação dos agentes de pastoral, no acompanhamento das comunidades e no trabalho com os jovens. Foi justamente nesse contato com a juventude que fui descobrindo um novo campo de apostolado, marcado pela necessidade de um acompanhamento próximo na busca pelo sentido da vida, em uma sociedade que oferece tantas possibilidades, mas que, muitas vezes, deixa as pessoas interiormente vazias.
Também exerci a função de delegada diocesana dos grupos missionários. Foi nesse período que passei a colaborar com as Obras Missionárias Pontifícias (OMP), experiência que ampliou ainda mais meu horizonte missionário.
Em 2012, nossa comunidade de Palo Santo foi encerrada e iniciamos uma nova presença missionária junto ao povo originário Kolla, em Isla de Cañas, pertencente à Diocese de San Ramón de la Nueva Orán, na Província de Salta, no nordeste da Argentina, próximo à fronteira com a Bolívia. Já são treze anos vivendo e realizando a missão nessa comunidade.
Atualmente, somos responsáveis pela Paróquia Santiago Apóstolo, assumindo tudo o que envolve sua animação pastoral e sua administração. Desenvolvemos o trabalho de catequese, acompanhamos a Infância e Adolescência Missionária (IAM), a União dos Enfermos e Idosos Missionários (UEAM), além da formação permanente dos agentes de pastoral e de outros grupos paroquiais, como a Legião de Maria e o movimento Hogares Nuevos.
Quando chegamos, poucas pessoas participavam da vida da Igreja. Havia apenas um pequeno grupo de idosos pertencentes à Legião de Maria. Aos poucos, por meio da formação e da animação dos agentes de pastoral, dos jovens e das crianças, muitas outras pessoas passaram a se aproximar da comunidade eclesial.
Esse crescimento foi tão significativo que, apenas dois anos após nossa chegada, a comunidade foi elevada à condição de paróquia, recebendo o nome de Paróquia Santiago Apóstolo, em 25 de julho de 2015.
Graças a Deus, contamos com a presença de um sacerdote que vem da cidade de Orán, distante cerca de 70 quilômetros, para celebrar a Eucaristia aos domingos.

Pastoral Indígena
A partir de 2015, passamos a integrar a equipe local de Pastoral Indígena, vinculada ao EDIPA (Equipe Diocesana de Pastoral Aborígene), que, por sua vez, está ligada à ENDEPA (Equipe Nacional de Pastoral Aborígene).
No ano seguinte, juntamente com alguns membros da comunidade, começamos também a participar dos encontros anuais de Teologia e Pastoral Andina, um processo iniciado em 1990 entre Peru e Bolívia, voltado para a reflexão e o desenvolvimento da Teologia e da Pastoral Andina.
Seu objetivo é promover um verdadeiro diálogo que parte das práticas religiosas indígenas-cristãs, entrelaçadas com suas cosmovisões, tradições ancestrais e vivências cristãs inculturadas.
No âmbito diocesano, exerci durante cinco anos o serviço de diretora diocesana das Obras Missionárias Pontifícias. Essa experiência permitiu-me continuar animando a pastoral missionária da Diocese, com todos os seus desafios, aprendizados e alegrias.
São 11 anos dedicados diretamente à animação missionária por meio das OMP, embora, pelo próprio carisma da Congregação, sejamos missionárias animadoras onde quer que estejamos. Ao mesmo tempo, já são 20 anos compartilhando a vida com os povos originários.
A convivência com esses povos enriqueceu profundamente minha vida, sobretudo por meio da espiritualidade andina, que tive a graça de conhecer não apenas pelos estudos, mas principalmente pela vida partilhada com eles.
Aprendi a contemplar a criação e a reconhecer nela os atributos de Deus. Descobri de maneira muito especial a maternidade divina simbolicamente presente na Pachamama, a Mãe Terra, e a paternidade de Deus expressa no sol, bem como a profunda fraternidade existente entre todos os seres criados - pessoas, animais e plantas.
Essa visão despertou em mim um profundo espírito de gratidão por tudo aquilo que Deus continuamente nos oferece através da criação. Como afirma São Paulo, os atributos invisíveis de Deus tornam-se visíveis por meio das obras da criação (cf. Rm 1,19-20).
Pouco a pouco fui assimilando um dos princípios fundamentais da espiritualidade andina: a inter-relação entre todos os seres e a unidade de toda a criação, aquilo que eles chamam de Pacha.
Hoje, olhando para trás e contemplando o caminho percorrido no diálogo intercultural e inter-religioso com os povos originários, percebo claramente a ação providente de Deus. Esse encontro não apenas me enriqueceu com a espiritualidade andina, mas também me conduziu de volta às minhas próprias raízes culturais. Fortaleceu minha identidade africana e minha espiritualidade inspirada no princípio do Ubuntu, cuja expressão resume uma profunda visão de humanidade: "Eu sou porque nós somos, e nós somos porque eu sou."
Conhecer a riqueza da espiritualidade andina despertou em mim o desejo de aprofundar cada vez mais minha própria espiritualidade africana e de descobrir a contribuição que ela pode oferecer ao mundo.
A vida comunitária, a Palavra de Deus e a oração em todas as suas expressões — a Eucaristia, a oração pessoal e comunitária —, juntamente com a identidade mariana vivida sob a proteção de Nossa Senhora da Consolata, têm sido os pilares da minha vida missionária.
Sou profundamente agradecida a Deus pela vocação missionária que recebi por meio da Congregação das Missionárias da Consolata. Graças a ela, tive a graça de experimentar a riqueza de tantos povos e culturas.
Também sou grata à ENDEPA, pelas formações que me proporcionou no trabalho com os povos originários; aos irmãos e irmãs que caminham comigo na Teologia e Pastoral Andina, provenientes da Argentina, da Bolívia e do Peru, com quem todos os anos nos reunimos para refletir sobre os caminhos da teologia e da pastoral andina; e às Obras Missionárias Pontifícias (OMP), por tudo o que recebi em formação e vivência missionária na Argentina.
Tenho uma gratidão muito especial por minha família, que foi verdadeiramente a Igreja doméstica onde comecei a conhecer Deus. Agradeço pelo apoio constante e pelo acompanhamento generoso da minha vocação religiosa missionária. Minha ação de graças estende-se também a todas as pessoas que, ao longo destes anos, foram instrumentos do amor de Deus em minha vida.
Aprendi a ser missionária vivendo a missão. E a missão transformou profundamente a minha vida. Ela me deu muito mais do que eu poderia imaginar. Sou imensamente feliz e agradecida a Deus pelo dom extraordinário da vocação missionária e por toda a experiência que venho realizando na Argentina.
Sinto-me profundamente grata pela abertura, pela acolhida e pela cordialidade do povo argentino. Agradeço, de modo muito especial, às inúmeras pessoas que confiaram em mim e me demonstraram um carinho sincero, um amor verdadeiro e uma amizade profunda.
Deixei minha casa, minha família, meu povo e minha pátria. No entanto, encontrei na Argentina uma família ampliada, segundo a bela compreensão africana de família. Hoje, sinto-me em casa. Na grande casa que Deus preparou para todos nós: o mundo inteiro, a Pacha, nossa casa comum.
Hannah Martha Wambui Ndungu, MC, é Missionária da Consolata na Argentina