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Bíblia

A Fé Começa Onde Termina a Indiferença

A primeira leitura do 30º Domingo do Tempo Comum (Ex 22,20-26) permanece atual: os excluídos daquele tempo continuam entre nós.

Por Geoffrey Boriga

A Palavra de Deus nunca nos deixa permanecer apenas no mundo das ideias. A Aliança que Deus estabelece com o seu povo não é um contrato abstrato nem um conjunto de preceitos destinados apenas ao culto; é um caminho de vida que transforma a maneira como nos relacionamos uns com os outros. É precisamente isso que encontramos no Livro do Êxodo.

O Decálogo, ou os Dez Mandamentos (cf. Ex 20,2-17), constitui o coração da Aliança e apresenta os valores fundamentais que devem orientar a relação do Povo de Deus com o Senhor e com os irmãos. Mas esses princípios gerais precisavam ganhar rosto e forma nas situações concretas da vida. É nesse contexto que surge o chamado “Código da Aliança” (cf. Ex 20,22-23,19), uma coleção de normas que procura aplicar à vida cotidiana os valores da justiça, da responsabilidade e do respeito pelo outro. A fé, para Israel, não podia ficar fechada no templo ou limitada às palavras: tinha de entrar em casa, no trabalho, nas relações sociais e nas decisões de cada dia.

Deus da Aliança

É precisamente isso que encontramos em Ex 22,20-26. A atenção concentra-se naqueles que vivem numa situação de maior fragilidade: o estrangeiro, o órfão, a viúva e o pobre. São pessoas que, por não terem poder, proteção ou recursos, podem facilmente tornar-se vítimas da indiferença e da exploração. O estrangeiro está longe da sua terra e das suas referências; o órfão e a viúva encontram-se sem a proteção familiar que, naquela sociedade, garantia segurança; o pobre, obrigado a pedir emprestado para sobreviver, pode tornar-se presa fácil de quem transforma a sua necessidade numa oportunidade de lucro.

Perante estas situações, Deus toma uma posição clara: não aceita que a força se imponha sobre a fragilidade. O Deus da Aliança escuta o clamor de quem sofre e coloca-Se do lado daqueles que não têm voz. Por isso, Israel não pode dizer que ama a Deus enquanto permite que os seus irmãos sejam humilhados, explorados ou abandonados. A relação com Deus passa inevitavelmente pela relação com o outro. A Aliança torna-se verdadeira quando produz justiça, solidariedade e cuidado.

Esta Palavra continua a ser profundamente atual. Basta abrir os olhos para perceber que os “estrangeiros”, os “órfãos”, as “viúvas” e os “pobres” continuam entre nós, embora hoje tenham outros rostos. São os imigrantes que chegam em busca de trabalho e acabam explorados, mal pagos ou tratados como mão de obra descartável; são as crianças vítimas de abuso ou negligência; são os idosos que passam dias inteiros sem uma visita; são os doentes abandonados à solidão; são as famílias que não conseguem pagar a renda, a alimentação ou as despesas básicas; são trabalhadores que aceitam condições indignas porque não têm outra escolha.

E há uma pergunta que não podemos evitar: que fazemos nós perante estas realidades? Podemos habituar-nos à pobreza, passar indiferentes diante de quem pede ajuda ou justificar a exploração dizendo que “sempre foi assim”. Mas a Palavra de Deus não nos deixa tranquilos. Ela obriga-nos a olhar de frente para aquilo que preferimos não ver e recorda-nos que a dignidade de uma sociedade se mede pela forma como trata os seus membros mais frágeis. Uma sociedade pode ser rica, moderna e tecnologicamente avançada e, ainda assim, ser profundamente pobre se deixar pessoas para trás.

Por isso, a nossa fé não pode limitar-se à oração, ao culto ou às boas intenções. Se Deus escuta o grito do pobre, também nós somos chamados a escutá-lo. Se Deus protege o estrangeiro, também nós somos chamados a acolhê-lo. Se Deus defende os frágeis, também nós devemos levantar a voz quando a sua dignidade é ameaçada. A caridade cristã não é apenas sentir compaixão; é aproximar-se, repartir, defender, acompanhar e, quando necessário, lutar contra aquilo que destrói a vida.

No fundo, Ex 22,20-26 coloca-nos diante de uma verdade simples e exigente: não podemos dizer que pertencemos a Deus se o sofrimento do irmão nos deixa indiferentes. A fidelidade à Aliança passa pelo modo como tratamos aqueles que nada nos podem oferecer em troca. Talvez seja precisamente aí que Deus nos espera: não apenas diante do altar, mas no rosto do estrangeiro, na solidão do idoso, na fragilidade da criança, na pobreza de uma família e no grito silencioso de quem já perdeu a esperança. Quando cuidamos do mais pequeno, a nossa fé deixa de ser apenas palavra e torna-se vida; e é então que a Aliança com Deus ganha verdade.

Geoffrey Boriga, imc, é missionário da Consolata na Coreia do Sul.

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