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Testemunho

Do sonho à realidade: um percurso vivido um dia por vez

Irmã Noeli Domingos Bueno, Missionária da Consolata, descreve as várias etapas de seu trabalho missionário, de maneira especial, na Guiné Bissau, onde se encontra no momento.

Por Noeli Domingos Bueno

Sou Irmã Noeli Domingos Bueno, brasileira, gaúcha, natural de São Martinho, RS, Missionária da Consolata. Minha vida missionária me permitiu passar por diversos lugares, antes e depois da profissão religiosa. Tudo começou em Horizontina, RS, na Escola Cristo Rei, internato, onde estudei o Magistério. Posteriormente fui a São Paulo, onde fiz a minha formação de Postulado em Jandira, cidade próxima à capital e o noviciado no Morrinho, na zona norte da cidade, onde emiti a profissão religiosa em 31 de janeiro de 1993. A primeira experiência missionária de um ano como irmã foi no estado de Minas Gerais, na então Paróquia de Santa Luísa de Marilac. 

 Os próximos dois anos de minha missão foi na Itália estudando Catequese e Espiritualidade Missionária no Juniorato Internacional. Retornando ao Brasil, em 1996, conclui a licenciatura em Pedagogia em São Paulo. No ano de 2000 fui para Manaus, AM, onde emiti os Votos Perpétuos em 7 de outubro de 2001. Meu novo trabalho foi Roraima, onde atuei diretamente com os indígenas Yanomami por 3 anos, vivendo com eles na aldeia da Missão Catrimani. Uma nova missão estava sendo aberta no estado do Pará, em Ananindeua, e para lá fui chamada a partilhar a vida em um bairro pobre, dominado por muito tráfico. Trabalhei lá por 11 anos desde a abertura da casa até a conclusão da nossa presença (2006-2017). Foi lá também que terminei o bacharelado em Serviço Social.  Em 2017, uma nova missão me foi pedida, agora a tão sonhada África, a missão da Guiné Bissau, onde me encontro até o momento.  

Na Guiné Bissau

Cheguei à Guiné Bissau em 19 de janeiro de 2017, ano inesquecível para uma Missionária que como eu, sempre sonhara em trabalhar fora da própria pátria. O sonho se tornou realidade e está sendo vivido um dia de cada vez. 

A nova missão me acolheu de braços abertos. A primeira coisa que fui chamada a fazer foi conhecer as três comunidades da então Delegação Guiné Bissau: Bor, Bubaque e Empada. Depois de curto tempo de visita às outras duas comunidades, Empada me acolhia, ainda sem destinação, pois deveria substituir uma Irmã que estava em férias. Depois de estudar em Bissau a língua crioula falada pela população, aprofundado o caminho histórico das duas dioceses, da política, da religião, da cultura deste país que me acolhia, a destinação chegou e a sorte caiu mesmo sobre Empada. 

A missão de Empada foi a primeira neste território da Guiné Bissau, sendo fundada em 1992 cuja primeira comunidade foi formada pelas Irmãs Emma Piera Casalli, Ana Paula Foletto, Adriana Medina Medina e Hortência Antunes, que enfrentaram a realidade e construíram uma grande história de lutas e desafios missionários.    

Empada é já confins do país com o Oceano Atlântico, lugar de difícil acesso, por isso muitas congregações na época (1990) foram convidadas pelo então Bispo diocesano Dom Settimio Arturo Ferrazzetta a vir prestar o seu serviço, mas infelizmente nenhuma respondeu positivamente. O convite então foi feito às Missionárias da Consolata que nem na Guiné Bissau estavam ainda. Eis que então as filhas do Allamano deram o seu “Sim” e vieram com muita alegria no meio de muçulmanos, numa aldeia (tabanca) de biafadas (etnia 100 % muçulmana). Havia algumas pessoas de outros grupos étnicos já morando nesta área e com esses é que se iniciou a evangelização. 

A área da Guiné Bissau é de 36.12 Km² sendo confinada pelo Senegal e Guiné Conacri. Foi colônia portuguesa, tendo adquirido a sua independência apenas no ano de 1974. Atualmente conta com uma população de cerca 2.000.000 de habitantes e 35 etnias presentes no território, entre elas os bijagós (da missão de Bibaque); balantas, felupes, papeis, fulas, mandingas, manjacos e biafadas, formando uma rica diversidade cultural e linguística.  Segundo a fala de nossos “garandes”, ou seja, pessoas mais idosas do lugar, a origem destes povos étnicos é muito antiga  e se perde no tempo. Antes mesmo da chegada dos europeus neste território africano, já havia um povo migrante que se instalou em regiões que escolhiam ou onde as circunstâncias forçavam a ficar, ou seja, interior ou litoral, duas áreas mais atrativas para tais grupos, adquirindo desta forma características do lugar, reforçando aquilo que os identificavam. Até os dias de hoje é comum reconhecer os grupos étnicos da Guiné Bissau  como “povos do interior e povos do litoral”. 

 A Missão de Empada, está localizada na região de Quinara, com uma população de quase 70.000 habitantes, com a sua capital em Buba, distante 20 km da missão. Desta forma, segundo o último censo populacional (2009),  Empada como setor  tem uma população de 17.500 habitantes. 

Apesar da maioria do povo nesta área ser muçulmana, toda a população até os dias de hoje têm grande apreço e admiração pelo trabalho desenvolvido pela Missão Católica, que, por princípio, nunca fez distinção de religião para servir as pessoas. 

Em 2021, fui transferida e me encontro até aos dias de hoje em Bor, uma periferia de Bissau, uma área muito reconhecida pela presença da casa Bambaran (útero externo) que acolhe crianças portadoras de deficiência física e mental, sendo hoje administrada pela Cáritas. 

Infelizmente a realidade sócio política hoje da Guiné Bissau em geral é caracterizada por instabilidade institucional persistente, crises frequentes no governo com golpes de Estado, criando um clima na população de incertezas, medos, instabilidade e miséria. 

Os campos que acompanhamos como Irmãs Missionárias da Consolata são em especial o da Evangelização, da Saúde e da Educação.

Quanto ao campo da Evangelização em Bor, acompanhamos a paróquia São José  com a presença de muitos movimentos e pastorais (da família, dos jovens pais, grupo jovem, grupo adolescentes, grupo pré-adolescentes, catequese, pastoral da Cáritas paroquial, do dízimo, da liturgia (leitores, coroinhas, anjos de porta, corais…), pastoral bíblica, Renovação Carismática Católica, Infância e Adolescência Missionária, Pastoral Vocacional,  movimento CV-AV Coração Valente e Alma Valente, Escoteiros). Muita criatividade para uma única paróquia. Desta forma as Irmãs tentam estar presentes junto destes grupos como orientadoras espirituais.

Especificamente atuo na Pastoral Vocacional Paroquial onde cada ano há jovens que entram nas casas de formação e seminários, e na IAM (Infância e Adolescência Missionária) com cerca de 300 crianças e adolescentes inscritos.   

É importante lembrar que as grandes celebrações acontecem no Santuário Ecológico da Mangueiras, um espaço aberto com ar condicionado vindo diretamente do céu, sempre com um espaço a mais para o último que chega. 

No campo da Educação, uma das Irmãs acompanha o Centro de Promoção Feminina com formação de economia doméstica num período de três anos com aprendizado em corte e costura, pinturas em tecido, culinária, medicina natural, transformação de frutas etc. Um curso reconhecido pela Cáritas Nacional. Outra Irmã da comunidade atua como professora de Inglês no “Liceu Ermondade Padre Ermano Battisti” e eu acompanho 17 estudantes num projeto em que contribuímos com as suas mensalidades já que suas famílias, na maioria das vezes, não conseguem pagar. Este valor pago é uma contribuição que se oferece aos professores para que os mesmos não façam greve, já que as escolas onde somente o Estado atua, vivem em constantes greves por falta de políticas públicas adequadas à Educação Estatal. 

Reconheço que a minha paixão pela Guiné Bissau, depois de quase dez anos, foi um percurso vivido um dia por vez…. A missão me convida a cada dia a “não ter medo de sujar as mãos”, e o “fazer o bem bem feito e sem barulho” do nosso querido Pai Fundador São José Allamano, buscando antes da missão, o caminho da santidade.  Acredito que esta missão na Guiné Bissau é identificada como um jardim, cada missionário(a) que por aqui passou ou que ainda passará é uma flor única e irrepetível que na sua diversidade deixa o ambiente mais colorido e agradável. Nesse jardim quero sempre ser a vinca, flor mais resistente e durável da Guiné Bissau que na sua simplicidade aguenta o sol e a resistência do calor, dom este necessário para viver o Carisma Allamaniano na família Consolata. 

Noeli Domingos Bueno, MC, é  Missionária da Consolata na Guiné Bissau.

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