Dom Evaristo Pascoal Spengler e Padre Bob Mulega, IMC.
Missão Catrimani: quando a presença vira Evangelho
A visita pastoral de Dom Evaristo Pascoal Spengler e os caminhos de uma Igreja que aprende a caminhar com os povos indígenas.
Entre os dias 6 e 9 de outubro, a Missão Catrimani, situada na Terra Indígena Yanomami, na Diocese de Roraima, acolheu a visita pastoral de Dom Evaristo Pascoal Spengler, bispo diocesano. Mais do que um acontecimento institucional, a visita constituiu uma oportunidade de encontro entre diferentes experiências de vida, diferentes maneiras de compreender o mundo e diferentes expressões da presença da Igreja na Amazônia.

Realizada em caráter interno, respeitando as particularidades do território e as exigências que envolvem a presença de pessoas externas nas comunidades indígenas, a visita permitiu ao bispo aproximar-se da realidade cotidiana dos Missionários e Missionárias da Consolata que vivem e trabalham junto ao povo Yanomami.
Durante sua permanência, Dom Evaristo conheceu a estrutura da missão, visitou comunidades indígenas situadas ao longo do rio e nas proximidades da sede missionária e participou de momentos de diálogo com os Yanomami e com a equipe missionária.
Foram dias de convivência, escuta e partilha, nos quais a realidade missionária pôde ser percebida para além das informações, relatórios e imagens que habitualmente chegam aos centros urbanos.
Na Amazônia, particularmente entre os povos indígenas, existem experiências que dificilmente podem ser compreendidas apenas por meio de documentos ou discursos. É necessário aproximar-se, escutar, observar e, sobretudo, reconhecer que cada povo possui uma história, uma sabedoria e uma maneira própria de compreender a existência. Nesse sentido, a visita pastoral tornou-se também uma experiência de aprendizagem.

O olhar de um pastor diante de uma realidade que transforma
Após seu retorno, Dom Evaristo compartilhou espontaneamente suas impressões sobre a experiência vivida na Missão Catrimani. Suas palavras revelam não apenas a satisfação pela visita, mas também o impacto humano e espiritual provocado pelo encontro com os Yanomami e com os missionários.
Referindo-se ao trabalho desenvolvido pela equipe, o bispo destacou: “Uma missão de fato de esvaziamento, de convivência, de poder estar junto e ser luz e esperança para o povo indígena Yanomami.”
A expressão utilizada pelo bispo — missão de esvaziamento — merece particular atenção. Em uma sociedade frequentemente orientada pela produtividade, pela visibilidade e pela acumulação de resultados, a experiência missionária entre os Yanomami apresenta uma lógica diferente. Trata-se de uma presença que exige disponibilidade para deixar de lado determinadas seguranças, abandonar expectativas imediatas e aprender a viver segundo ritmos que nem sempre correspondem aos nossos.
O missionário que chega à floresta não encontra simplesmente um espaço onde deverá desenvolver atividades. Encontra pessoas, relações, tradições, conhecimentos e uma história que já existiam muito antes de sua chegada. Por isso, a primeira atitude missionária não pode ser a pretensão de ensinar tudo, mas a humildade de reconhecer que também temos muito a aprender.
Dom Evaristo manifestou igualmente sua admiração pela organização comunitária e pelo modo de vida dos Yanomami. Em seu testemunho, recordou a experiência de conhecer as habitações coletivas, onde diferentes famílias compartilham um mesmo espaço de convivência, e destacou a simplicidade material que caracteriza muitos aspectos da vida comunitária.
Segundo o bispo, essa realidade o impactou profundamente, sobretudo pela maneira como as pessoas vivem com poucos bens materiais e pelas dificuldades que enfrentam para acessar serviços e recursos disponíveis nos centros urbanos. O encontro com outro povo não transforma apenas a maneira como olhamos para ele; transforma também a maneira como compreendemos a nós mesmos.
Entretanto, é importante distinguir a simplicidade material, que pode expressar valores culturais próprios, das situações de privação que ameaçam a vida e exigem respostas concretas. A riqueza cultural de um povo não pode ser utilizada para justificar a ausência de políticas públicas, assim como suas necessidades materiais não podem servir de argumento para desvalorizar seus conhecimentos, suas tradições e sua autonomia.
A Missão que não se mede apenas pelo que constrói
Uma das dificuldades de compreender a Missão Catrimani está relacionada à maneira como frequentemente avaliamos a atividade missionária. Em muitos contextos, a presença da Igreja é identificada com a construção de escolas, hospitais, igrejas, centros comunitários ou com a realização de grandes projetos sociais. Essas iniciativas possuem valor e, em determinadas circunstâncias, representam respostas indispensáveis às necessidades das populações.
Entretanto, existem realidades missionárias nas quais a contribuição mais profunda da Igreja não pode ser reduzida a obras materiais. Na Missão Catrimani, a presença missionária procura desenvolver-se a partir da convivência, do respeito à cultura Yanomami, da escuta das comunidades e do compromisso com a defesa da vida.
Isso não significa ausência de atividades ou de iniciativas concretas. Ao contrário, o cotidiano missionário envolve o acompanhamento de situações de saúde, a atenção às crianças e às famílias, o apoio aos processos de formação de jovens e mulheres, a colaboração com organizações indígenas e instituições parceiras, além das exigências permanentes de manutenção e logística em uma região de difícil acesso.
A malária, a desnutrição infantil, as dificuldades de assistência à saúde e as ameaças aos territórios indígenas são algumas das situações que exigem atenção e compromisso. Contudo, o sentido dessas iniciativas não está em substituir o protagonismo das comunidades, mas em fortalecer suas capacidades de organização, suas possibilidades de decisão e o exercício de seus direitos.
A Missão não existe para tornar o povo Yanomami dependente dos missionários. Existe para testemunhar o Evangelho mediante relações que promovam a vida, respeitem a liberdade e reconheçam a dignidade de cada pessoa.
Evangelizar não significa apagar a identidade de um povo para introduzi-lo em outra cultura. Significa testemunhar o amor de Deus em relações marcadas pela liberdade, pelo respeito e pela possibilidade de um encontro verdadeiro.

Uma Igreja que visita, escuta e aprende
A presença de Dom Evaristo na Missão Catrimani possui também um significado eclesial importante. A missão não é uma realidade isolada, pertencente exclusivamente a uma congregação religiosa. Ela participa da vida da Igreja local e da responsabilidade evangelizadora de toda a comunidade cristã.
Os Missionários e Missionárias da Consolata, por meio de seu carisma específico, procuram oferecer uma contribuição particular à missão da Igreja entre os povos indígenas. Essa contribuição, entretanto, encontra sua plenitude na comunhão eclesial, no diálogo com a Diocese e na colaboração com as diferentes instituições comprometidas com a dignidade humana.
Nesse contexto, a visita pastoral representou uma oportunidade de aprofundar o conhecimento mútuo entre a Diocese de Roraima e a equipe missionária. Mais do que apresentar resultados, foi possível compartilhar desafios, necessidades e perspectivas.
Também foi uma ocasião para tornar visível uma dimensão da missão que nem sempre aparece nas comunicações institucionais: a humanidade de quem serve. Por trás de cada iniciativa missionária existem pessoas que enfrentam distâncias, limitações materiais, dificuldades de comunicação, isolamento e responsabilidades que ultrapassam as atividades pastorais convencionais.
Na floresta, o missionário não é apenas alguém que anuncia, celebra ou organiza encontros. É também alguém que aprende a cuidar da própria casa, enfrentar dificuldades logísticas, acompanhar situações de sofrimento e compartilhar a vida cotidiana com seus irmãos e irmãs.
Essa experiência não diminui a dimensão espiritual da missão. Ao contrário, recorda que a espiritualidade cristã não está separada da existência concreta. A encarnação do Evangelho acontece precisamente quando a fé encontra a realidade humana, com suas alegrias, contradições, fragilidades e esperanças.
O testemunho que continua depois da visita
Um dos aspectos mais significativos da mensagem de Dom Evaristo foi sua afirmação de que, após retornar da Missão Catrimani, continuou falando sobre a experiência vivida. O bispo declarou: “Depois que eu voltei, tenho falado muito da missão”. E acrescentou: “Tenho, assim, cada vez mais admiração por essa missão aí junto desse povo Yanomami.”
Essas palavras revelam que a experiência não terminou com o retorno à cidade. O encontro permaneceu presente em sua memória e passou a integrar suas conversas e reflexões.
Esse é um dos frutos mais importantes de uma visita pastoral: quando aquilo que foi vivido ultrapassa o momento do encontro e começa a produzir novas perguntas, novas sensibilidades e novos compromissos.
Dom Evaristo manifestou também o desejo de retornar à Missão Catrimani no próximo ano, possivelmente acompanhado por outros missionários ligados à coordenação. A intenção de ampliar essa experiência de aproximação, embora condicionada pelas dificuldades de transporte aéreo, representa uma perspectiva positiva para o fortalecimento dos vínculos entre a Diocese e a missão.
Mais do que multiplicar visitas, o desafio será aprofundar uma compreensão compartilhada sobre o significado da presença da Igreja entre os Yanomami. Uma presença que precisa ser construída com prudência, responsabilidade e respeito aos processos próprios das comunidades.

A dignidade dos povos indígenas como compromisso de toda a Igreja
A experiência da Missão Catrimani recorda que a defesa da dignidade dos povos indígenas não constitui uma preocupação secundária da atividade evangelizadora. Ela pertence ao próprio testemunho cristão.
A fé em um Deus que se fez humano não permite separar o anúncio do Evangelho do respeito à vida concreta das pessoas. Defender a dignidade humana significa reconhecer o direito dos povos indígenas à própria identidade, à preservação de suas línguas, à proteção de seus territórios, à assistência adequada à saúde e à participação efetiva nas decisões que afetam suas vidas.
Significa também reconhecer que os povos indígenas não são apenas destinatários de ajuda ou de iniciativas pastorais. São sujeitos históricos, portadores de conhecimentos, valores, experiências espirituais e formas de organização social que merecem reconhecimento e respeito.
A Igreja é chamada a caminhar com esses povos, não a ocupar seu lugar. Nesse sentido, a missão exige uma permanente atitude de conversão. Precisamos aprender a distinguir entre aquilo que realmente contribui para a vida das comunidades e aquilo que responde apenas às nossas expectativas externas.
Nem toda iniciativa considerada positiva por quem chega de fora corresponde necessariamente às prioridades de quem vive no território. Por isso, a escuta não pode ser apenas uma etapa inicial do trabalho missionário. Ela precisa tornar-se uma atitude permanente.
Escutar significa reconhecer a capacidade do outro de interpretar sua realidade, expressar suas necessidades e participar das decisões que dizem respeito ao seu futuro. É nesse horizonte que a missão encontra uma de suas expressões mais autênticas: a construção de relações nas quais ninguém precisa perder sua identidade para ter sua dignidade reconhecida.

A missão pertence a toda a Igreja, mas começa no reconhecimento do outro
A visita pastoral de Dom Evaristo à Missão Catrimani nos oferece uma oportunidade para refletir sobre o significado da missão no mundo contemporâneo. A experiência missionária entre os Yanomami nos ensina que a missão não pode ser compreendida apenas como deslocamento geográfico, expansão institucional ou realização de atividades religiosas.
Antes de tudo, ela participa da missio Dei, a missão de Deus, que precede a iniciativa humana e nos convida a reconhecer sua presença na história dos povos. Não somos nós que levamos Deus a lugares onde Ele estaria ausente. Somos chamados a testemunhar Jesus Cristo e a discernir, com humildade, os sinais da presença e da ação de Deus nas realidades humanas que encontramos.
Essa compreensão modifica profundamente a postura do missionário. Aquele que chega deixa de considerar-se o centro da experiência missionária e aprende a reconhecer que a missão é, antes de tudo, encontro entre pessoas, culturas, histórias e experiências de fé. Encontro que exige disposição para escutar, aprender, partilhar e, quando necessário, rever nossas próprias maneiras de pensar e agir.
A expressão utilizada por Dom Evaristo, ao definir a experiência da Missão Catrimani como uma missão de esvaziamento, aproxima-nos de uma das dimensões mais profundas da espiritualidade cristã: a kenosis, o esvaziamento de Cristo, apresentado por São Paulo na Carta aos Filipenses (Fl 2,5-11).
Cristo não manifesta sua grandeza mediante a imposição de poder, mas por meio da entrega de si. Para nós, missionários, essa atitude representa um desafio permanente. Esvaziar-se não significa renunciar à própria identidade, à fé ou à responsabilidade de anunciar o Evangelho. Significa renunciar à pretensão de superioridade, ao desejo de controlar os processos do outro e à tentação de transformar a missão em instrumento de afirmação pessoal ou institucional.
A autoridade moral do missionário nasce menos do poder que exerce e mais da coerência da vida que partilha. São José Allamano, fundador dos Missionários e Missionárias da Consolata, compreendia que a qualidade humana e espiritual de quem evangeliza é inseparável da própria missão. Sua insistência na formação integral do missionário continua particularmente atual em contextos interculturais.
Na Amazônia, aprendemos diariamente que a missão não pertence exclusivamente àqueles que vivem nas comunidades mais distantes. A missão pertence a toda a Igreja. Pertence ao bispo que se aproxima para conhecer e escutar; às congregações religiosas que oferecem pessoas e recursos; às comunidades cristãs que sustentam a presença missionária com suas orações, sua solidariedade e seu compromisso; e às instituições e organizações que colaboram para a proteção da vida e dos direitos dos povos indígenas.
De maneira fundamental, essa caminhada precisa reconhecer o protagonismo dos próprios Yanomami, cuja história, sabedoria e capacidade de organização não podem ser reduzidas à condição de simples destinatários da ação missionária. Uma Igreja verdadeiramente missionária não é aquela que pretende falar por todos, mas aquela que aprende também a escutar as vozes que historicamente foram silenciadas.
A experiência de Catrimani também nos recorda que a fecundidade missionária não pode ser medida exclusivamente por números, construções ou resultados imediatos. Existem frutos que amadurecem lentamente: uma relação de confiança construída ao longo dos anos, uma comunidade que fortalece sua organização, uma liderança jovem que encontra espaço para participar, uma mulher que tem sua voz reconhecida, uma criança cuja vida é protegida ou um diálogo que supera antigas incompreensões.
A visita de Dom Evaristo nos encoraja a continuar esse caminho de comunhão e discernimento. Seu testemunho demonstra que a aproximação pessoal pode transformar percepções, ampliar horizontes e fortalecer a consciência de que a missão precisa ser assumida como responsabilidade compartilhada.
Depois de anos de convivência com o povo Yanomami, uma convicção se torna cada vez mais profunda: a missão não consiste em fazer com que o outro se torne semelhante a nós, mas em testemunhar o amor de Cristo de tal maneira que a vida, a liberdade e a dignidade do outro sejam plenamente respeitadas.
A floresta nos ensina que nem tudo aquilo que é essencial produz ruído. As raízes que sustentam as grandes árvores permanecem escondidas. Assim também acontece com muitas dimensões da missão. A presença silenciosa, a escuta paciente, a fidelidade cotidiana e o compromisso com a vida nem sempre recebem reconhecimento público, mas sustentam relações capazes de atravessar gerações.
Talvez seja essa uma das contribuições mais importantes que a Missão Catrimani pode oferecer à reflexão missionária da Igreja contemporânea: recordar que a missão não se define primeiramente pela quantidade de coisas que conseguimos realizar, mas pela qualidade evangélica das relações que somos capazes de construir.
Não existe missão autêntica onde a dignidade humana não é respeitada. Não existe evangelização verdadeira onde o outro não é reconhecido como pessoa, sujeito de sua história e portador de uma identidade que merece ser protegida. E não existe Igreja verdadeiramente missionária quando a responsabilidade pelo Evangelho é deixada apenas nas mãos daqueles que partiram para terras distantes.
A missão é de todos. Mas sua autenticidade começa quando aprendemos a caminhar juntos, sem transformar as diferenças em obstáculos e sem permitir que nossas próprias certezas nos impeçam de reconhecer a humanidade do outro.
Afinal, a missão não começa quando chegamos a um povo. Ela começa quando aprendemos a encontrá-lo, respeitá-lo e amá-lo como ele é.
Bob Francis Mulega, imc, é Missionário da Consolata em Roraima, Terra Indígena Yanomami