Missionários no Santuário da Consolata, Turim – Foto: Jaime C. Patias.
São José Allamano com o olhar da Consolata
“Quantas lágrimas e quanto sofrimento transbordam aquelas pedras e aqueles muros, quantas graças suplicadas e recebidas por ocasião de doenças, desgraças, carestias, peste, guerras, assédios e fome. Sem falar dos casos pessoais que reúnem no Santuário da Consolata as classes populares, a aristocracia e a mesma casa real.” Nos tempos de José Allamano, assim era descrito o Santuário da Consolata, guardião de uma grande variedade de “ex voto” a testemunhar a difusão, no meio do povo, da devoção à Mãe Consolata e das graças recebidas por sua intercessão.
Por ocasião da festa da Consolata do ano passado, eu escrevi que em uma região popular de Turim, a Consolata faz um todo com a “santidade social” de São José Cafasso, com Cotolengo e Dom Bosco, e se faz próxima do povo, condivide com eles as alegrias e os sofrimentos e encoraja-os a manter viva a esperança.
Nesta história de devoção e entrega, se insere São José Allamano, para quem a Consolata representava um ponto de partida enquanto é Ela que gerou o Instituto como fundadora e mãe, e um modelo que é proposto aos seus missionários para a vida e a missão.
De fato, o Allamano era profundamente convencido de que: “A verdadeira Fundadora é Nossa Senhora. Não há dúvida de que tudo o que foi realizado aqui é obra da SSma. Consolata. Somos Consolatinos. Devemos considerar-nos felizes de ter o nome de Nossa Senhora... devemos ser santamente orgulhosos de pertencer à Nossa Senhora com este título invejado por muitos. E quantos nos querem bem, porque nos chamamos Missionários ou Missionárias da Consolata”. E por isso exortava os seus missionários: “O nome que tendes deve impulsionar-vos a ser o que deveis ser”.
Allamano e a Consolata
São José Allamano teve um papel fundamental na história do Santuário e na divulgação do amor à Consolata. A sua profunda espiritualidade mariana o levou a promover a devoção a Maria Consolata e, pessoalmente, se reservava diariamente momento para se afastar e contemplar a imagem da Virgem. Com o seu olhar voltado para ela, do ‘terraço’, era recompensado por aquele de Maria que o sustentava nas suas responsabilidades como reitor e o orientava nas preocupações pelo Instituto nascente.
Padre Igino Tubaldo, IMC, historiador do Instituto, escrevendo sobre o Santuário da Consolata, teve uma profunda intuição: “Aqui se venera uma antiga ícone de Maria que inspira suavidade; como as clássicas ícones orientais, com as quais tem algo mais que uma simples semelhança, é Maria que olha para o fiel mais do que ser contemplada por ele. Por tudo aquilo que acontece neste Santuário, dentro dele e ao seu redor, se poderia dizer que Nossa Senhora está aí como a hóstia está num ostensório”.
Esta reciprocidade de olhares é muito sugestiva e tem uma dúplice aplicação em nossa vida: deixar-nos consolar pelo olhar de Nossa Senhora, para olhar os outros com o mesmo olhar de Maria.
Olhos e Coração
Assim a ícone da Consolata se torna um convite a meditar sobre a qualidade do nosso olhar, no qual transparece o nosso coração. Porque é através dos “olhos do coração”(Ef 1,18), que podemos transformar a nossa percepção interior em um modo de olhar os outros com acolhimento e consolação. O santo Fundador nos recorda: “Se não tiverdes a devoção a Nossa Senhora, e não digo só devoção, mas uma terna devoção, não vos tornareis santos!” Uma devoção “terna”, isto é, que nasce do coração porque: “Onde existe amor, ali está o olhar”, (Ricardo di San Vittore), enquanto o olhar se dirige naturalmente para aquilo que amamos e valorizamos.
“Olho e Coração” que na vida do Santo Fundador encontrou uma combinação exemplar para nós, sobretudo respeito à sua forte humanidade enriquecida pela intensa atividade espiritual. Uma humanidade que as pessoas podiam ler no seu semblante sorridente, viam nos seus olhos penetrantes e percebiam no seu olhar intuitivo: “Com expressão sorridente, calma, afável ele se tornava encontro para cada pessoa a que se aproximava. Levava à confiança também graças ao leve sorriso que resplandecia quase habitualmente no seu rosto”.
Deixar-se Olhar pela Consolata
Neste ano celebramos a Festa da Consolata contemplando a sua ícone. Nos detemos por um instante para olhar a sua imagem, nos quadros das nossas Igrejas e capelas, nos corredores, ou mesmo nos escritórios em que trabalhamos. Enfim: “Sintamos próxima a Consolata”.
Atenta e cuidadosa, o seu olhar nos acompanha por toda a parte, nos protege nas estradas da missão, habita em nossas comunidades, inclina-se sobre os doentes, reaviva a esperança dos pobres e dos oprimidos.
Sob o seu olhar nos sentimos família e criamos fraternidade. À Ela confiamos os missionários e missionárias cansados e desiludidos, todos aqueles que se sentem sós e abandonados, os migrantes, as crianças nos campos de refugiados, os povos indígenas, todos os que sofrem por causa das guerras e das injustiças e aqueles que não conhecem Jesus. Elevemos o nosso olhar para a Consolata e deixemo-nos abraçar pelo olhar amoroso da Consolata; cabe a nós difundi-lo com gestos de ternura, proximidade e consolação ao interno das Comunidades e para os mais necessitados.
Por isso rezemos todos juntos: “Maria Consolata, dá-nos o Teu olhar!”
Pe. James Legarin é Superior Geral IMC. Traduzido da Revista Missões/Edição Junho 2026 por Ir. Benildes Clara Capellotto, MC.