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A diplomacia da boia e a arte de olhar para o outro lado: a migração nos interpela

A verdadeira tragédia não são as fronteiras perfuradas, mas a constatação de que, para a alta política, um ser humano nadando à noite ou caminhando três mil quilômetros não passa de um peão barato em um tabuleiro de xadrez.

Por Juan Carlos Greco

A imagem das águas de Ceuta transformadas em um improvisado depósito de cadáveres no final de julho e início de agosto, voltou a nos lembrar de como funciona bem a nossa geopolítica de fachada. Diante de uma tragédia humanitária que fez explodir os já precários recursos de acolhimento, a Igreja local teve de sair resgatando os imigrantes, enquanto a classe política ensaia sua disciplina favorita: tirar o corpo fora.

O estopim — caso alguém ainda estivesse vivendo debaixo de uma pedra — foi a repentina peregrinação em massa pelo quebra-mar de Tarajal, pelo mar e pelas cercas. Um grupo heterogêneo de mulheres, pessoas com mobilidade reduzida e uma esmagadora maioria de jovens e menores de idade decidiu que a natação noturna era sua melhor aposta para o futuro. Nem os controles reforçados do país vizinho, nem as rajadas de gás lacrimogêneo, nem os canhões de água conseguiram conter o ímpeto de milhares de desesperados. Diante de tamanho transbordamento, a brilhante solução do governo foi tirar a camuflagem do armário e mobilizar o Exército para guardar as esquinas. A dignidade humana, essa sim, não vinha incluída no equipamento regulamentar.

Esmolas para o desastre e roupas de neoprene

Diante do colapso, a Igreja diocesana emitiu seu habitual comunicado de “profunda preocupação”, oferecendo seus serviços com aquela requintada cortesia burocrática de “respeitar as competências de cada administração” (como se alguma delas estivesse assumindo as próprias responsabilidades). Uma das medidas da Diocese de Cádiz e Ceuta para amenizar a catástrofe foi determinar que, nas paróquias locais, o dinheiro arrecadado nas missas fosse enviado à Delegação de Migrações.

Sem dúvida, as moedas recolhidas aos domingos não resolverão a situação da massa de pessoas mergulhadas na indigência urbana, cuja única posse ao pisar em terra firme era uma roupa de neoprene encharcada e o estômago vazio. Mas sempre é melhor colocar os cinco pães e os peixes em comum.

É claro que tanto as equipes de assistência quanto as Forças de Segurança estão à beira do colapso nervoso, sustentando a duras penas um sistema de contenção que transforma Ceuta em um dique permanente. Mas não importa: a palavra de ordem oficial é que a solidariedade deve ser infinita, ainda que seja financiada com a saúde mental de meia dúzia de voluntários e agentes sobrecarregados.

A chanchada institucional e o vizinho simpático: “Que não reine o pânico!”

A dimensão da crise levou o governo local a implorar pelo fechamento da fronteira e pelo auxílio das Forças Armadas, com um consenso político tão unânime quanto insólito. E qual foi a resposta de Madri? Que não se pode declarar “emergência nacional” porque, segundo o manual de Proteção Civil, uma maré humana não se enquadra como risco oficial. Faltaria mais essa.

Mas que não reine o pânico: o Executivo nos garante que a cooperação com Marrocos é “intensa e frutífera”, um eufemismo fascinante para descrever a arte de devolver pessoas sumariamente, enquanto as forças auxiliares marroquinas olhavam para o outro lado durante as investidas contra o quebra-mar.

É até comovente que as autoridades tenham sido pegas de surpresa por esse episódio, considerando que, nos dias anteriores, a venda de boias e roupas de água em Marrocos estava em alta, à vista de todos. Por uma dessas coincidências do destino, a avalanche coincide no calendário com a agenda argelina de Pedro Sánchez — depois de sua visita à Argélia, em meio às tensões envolvendo o Saara — e com as habituais manobras de Rabat, que já utilizou milhares de pessoas como moeda de troca geopolítica em 2021.

Enquanto isso, no cenário político nacional, a oposição exibe sua habitual demagogia, classificando a tragédia como “invasão”, e o circo político segue seu curso sobre as costas dos mesmos de sempre.

O manual do refugiado como arma: da piscina de Ceuta à maratona pan-americana

É preciso reconhecer uma coisa nos autocratas de hoje: eles descobriram que o melhor míssil teleguiado não leva pólvora, mas chinelos, roupas de neoprene e uma mochila com roupas molhadas. Para que gastar com orçamento militar se é possível desestabilizar o vizinho enviando-lhe milhares de pessoas desesperadas? É a diplomacia da migração sob medida, uma modalidade olímpica em que Marrocos e Venezuela disputam o lugar mais alto do pódio.

O espetáculo é fascinante em sua hipocrisia. Naquele canto do Mediterrâneo, Rabat abre ou fecha a torneira do quebra-mar de Tarajal conforme amanhece o humor diplomático em Madri. A Espanha atende um líder rival ou pisca o olho para a Argélia? Nada que um mergulho em massa de milhares de jovens através de cercas desprotegidas não possa resolver.

Nas praias de Ceuta, enquanto isso, o Estado espanhol descobre que a ‘dignidade humana’ não veio incluída no orçamento da Proteção Civil. Então manda o Exército fazer o papel de salva-vidas e pede à Igreja que passe a sacolinha no domingo para comprar toalhas.

Do outro lado do Atlântico, o regime de Caracas aperfeiçoou o modelo até transformá-lo em um fenômeno de exportação em massa. Milhões de venezuelanos caminhando por todo um continente não constituem uma crise para a cúpula do poder: são uma engenhosa “válvula de escape” para esvaziar o país de descontentes e exportar colapsos para os países vizinhos. E importar “a remessa” de cada dia.

Também na “ilha” (Cuba), deixam escapar embarcações improvisadas que depois garantem dólares — e dores.

Neste circo de três picadeiros, a verdadeira tragédia não são as fronteiras perfuradas, mas a constatação de que, para a alta política, um ser humano nadando à noite ou caminhando três mil quilômetros não passa de um peão barato em um tabuleiro de xadrez.

Uma tragédia com causas estruturais e a “lembrança” da Clamor

É fascinante observar como a realidade insiste em empacotar tudo no mesmo lugar: desemprego juvenil, deserto, minerais raros, terras raras e falsas promessas vendidas por traficantes. Em Ceuta, as pessoas não se chocaram contra uma cerca por acaso, mas contra todo o catálogo da geopolítica moderna.

A Rede Clamor — presença e referência da Igreja no Brasil no trabalho com migrantes, refugiados e vítimas do tráfico de pessoas, entre outras frentes — vem lembrar o óbvio que muitos adoram ignorar: erguer muros e fingir que o problema desaparece não é uma estratégia, mas uma maneira cara de aprofundar o sofrimento.

Enquanto alguns insistem em alimentar discursos que apresentam o migrante como uma ameaça à coesão social — alimentando o racismo e a indiferença —, a Igreja recorda algo tão elementar quanto isto: migrar é um direito humano, ligado ao direito sagrado de não ser obrigado a migrar por causa da fome ou da guerra.

Exortar a União Europeia e as autoridades a garantir o direito de asilo, proteger crianças desacompanhadas e respeitar o princípio da não devolução pode soar utópico nos gabinetes de Bruxelas ou Madri. Mas a equação é bastante clara: se a resposta europeia continuar sendo fechar a porta e olhar para o outro lado, apenas se alimentarão a indigência e o negócio das máfias.

Ou se substituem as cercas por proteção e por um mínimo de humanidade — como pedia a parábola do Bom Samaritano, muito antes de existirem vistos —, ou continuaremos fingindo surpresa diante da próxima maré de corpos.

Ao citar os ensinamentos dos papas e conclamar a não sermos cúmplices da “globalização da indiferença”, a Igreja tenta colocar um pouco de lucidez em meio à pilhagem política.

Resta apenas fazer uma última oração secular: “Deus, não permitas que nos transformemos em inimigos e livra-nos dos maus políticos… Amém!!”

Juan Carlos Greco, imc, é missionário da Consolata em Roraima, trabalhando com os indígenas Warao.

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