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“Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”

Esse é o lema da 32ª edição do "Grito dos Excluídos e Excluídas”, de 2026, que tem por tema permanente: “Vida em Primeiro Lugar!”.

Por Ana Valim e Cláudia Pereira 

O lema do Grito, manifestação que acontece em todo o Brasil na Semana da Pátria, sobretudo no dia 7 de setembro, dialoga com o tema da Campanha da Fraternidade da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, com a conjuntura política, social e econômica nacional e internacional e com a luta dos movimentos populares. A escolha do lema anual do Grito é resultado de debates feitos nos locais, durante todo o ano, através da rede de articuladores e articuladoras espalhados em todas as regiões do Brasil. 

Em sintonia com as lutas comunitárias, a edição de 2026 conecta o combate à violência de gênero, déficit habitacional e o complexo cenário geopolítico em defesa da soberania. Concentra-se nos rostos e situações em que a vida se encontra mais ameaçada e vulnerável, na defesa da terra, da paz, da moradia. E traz, de forma contundente, um eco feminino diante da realidade brutal e revoltante que se expressa no aumento do feminicídio: mais de 1.500 mulheres foram assassinadas em 2025, no país. Somente no primeiro semestre de 2026, foram 741 casos, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Mais de quatro mulheres mortas por dia, ou seja, uma a cada cinco horas e meia.

O 32º Grito ecoa fortemente sobre a crise habitacional brasileira e o perfil de quem mais sofre com a falta de teto no país. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) e de entidades do setor revelam uma mudança significativa no perfil de ocupação das cidades brasileiras, marcada pelo encarecimento do custo de vida e pela financeirização do solo urbano.

Atualmente, o Brasil registra um déficit habitacional de 5,97 milhões de domicílios e outros 27,6 milhões apresentam algum tipo de inadequação, como infraestrutura precária, adensamento excessivo e insegurança fundiária, segundo dados da Fundação João Pinheiro. Nesse cenário, as famílias chefiadas por mulheres, estão entre as mais afetadas e representam 62,6% do déficit habitacional do país.

A desigualdade se torna ainda mais severa ao cruzar o fator racial. A Habitat para a Humanidade Brasil aponta que uma mulher negra pode levar até sete gerações, o equivalente a 184 anos, para conseguir comprar a casa própria no país.

Terra em conflito

Os conflitos por terra permanecem no centro da disputa social e política no Brasil, representando 75% de todas as ocorrências rurais registradas em 2025, de acordo com o relatório Conflitos no Campo Brasil 2025, da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Apesar de o relatório apontar uma redução de 28% no total geral de ocorrências em 2025 (1.593 registros contra 2.207 em 2024), os números da violência contra a posse e a ocupação da terra atingiram a marca de 1.186 casos. O estado do Maranhão lidera o ranking nacional de violência pela terra, com 190 registros, seguido por Pará (142), Rondônia (111) e Bahia (101). O levantamento chama a atenção para o crescimento contínuo de violações causadas por omissão e conivência do Estado (224 casos) e pela violação das condições de existência das comunidades (117 casos).

Paralelamente, a letalidade no campo atingiu patamares gravíssimos: os assassinatos dobraram em 2025, passando de 13 para 26 mortes. A Região Norte concentrou 61% dos assassinatos, e cerca de 77% das execuções foram atribuídas à ação de fazendeiros, atuando como mandantes ou executores.

A falta de acesso à terra alimenta diretamente o ciclo do trabalho análogo à escravidão no campo e nas cidades. Em 2025, 1.991 trabalhadores foram resgatados do trabalho escravo rural em 159 casos (alta de 23% no número de pessoas libertadas), com destaque para setores como construção de usinas, lavouras, cana-de-açúcar, mineração e pecuária. No ambiente urbano, o resgate de trabalhadores saltou 60%, atingindo 1.007 pessoas libertadas.

A disputa territorial reflete-se também nos conflitos pela água (148 ocorrências em 2025). A apropriação privada dos recursos hídricos, a contaminação por agrotóxicos e rejeitos minerários e a destruição de mananciais atingem praticamente todos os estados do país, vitimando principalmente pescadores artesanais, ribeirinhos, indígenas e quilombolas.

Em 2025, segundo relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil, do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), os assassinatos de indígenas saltaram para 258 registros - frente aos 211 do ano anterior -, concentrando-se principalmente em Roraima (82), Amazonas (47) e Mato Grosso do Sul (37).

Democracia, Soberania e Paz

Diante do acirramento das tensões globais e do avanço de pautas neofascistas, o 32º Grito traz, entre seus eixos de luta, a defesa da soberania democrática e o enfrentamento ao imperialismo e denuncia o aumento das interferências externas no Brasil e na América Latina. 

Em sua 32ª edição, o Grito alerta para a necessidade de manter os países em desenvolvimento livres da ingerência de grandes potências, garantindo sua autodeterminação política e econômica. Tendo em vista o peso estratégico do Brasil na geopolítica e na economia, por abrigar a maior reserva de terras raras do mundo depois da China, além de abundantes recursos de água doce e petróleo, o país é alvo prioritário no cenário das disputas internacionais.

O Brasil está vivendo um processo eleitoral extremamente disputado, marcado pelo confronto com forças de extrema direita internas e externas, que se manifestam no apoio da extrema direita internacional e do imperialismo estadunidense empenhados em derrubar alternativas de governos progressistas e populares, a exemplo do que vem ocorrendo em outros países latino-americanos. 

O Grito conclama o povo brasileiro a defender as liberdades democráticas e fazer do voto uma ferramenta para garantir que a democracia e a soberania prevaleçam para garantir direitos e vida digna a todo o povo brasileiro. 

Carta da Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), assinada por seu presidente, Dom Valdeci Santos, bispo de Brejo/MA, convoca pastorais, organismos e movimentos populares a fortalecerem a mobilização do 32º Grito nos diferentes territórios e dioceses do país. E destaca que neste momento decisivo para a realidade brasileira, especialmente devido ao contexto das eleições, o cenário exige uma articulação forte e coerente com os valores cristãos, promovendo espaços de discussão, mobilizações comunitárias e gestos solidários.

“Temos muitos gritos que precisamos ecoar em favor da vida de nosso povo e de nossas comunidades, que tanto sofrem com as contradições deste tempo presente”, afirma a mensagem.

Origem e construção do Grito

A proposta do Grito dos Excluídos e Excluídas surgiu em 1994, a partir do processo da 2ª Semana Social Brasileira, da CNBB, cujo tema era Brasil, alternativas e protagonistas, inspirada na Campanha da Fraternidade de 1995, e lema: A fraternidade e os excluídos. O primeiro Grito foi realizado em 7 de setembro de 1995, tendo como lema “A vida em primeiro lugar”.

Entre as motivações que levaram à escolha do dia 7 de setembro está a de fazer um contraponto ao Grito da Independência oficial. Nada melhor do que esta data para refletir sobre a soberania nacional, que é um dos eixos das mobilizações do Grito dos Excluídos e Excluídas e nesta perspectiva, se propõe a superar um patriotismo passivo em vista de uma cidadania ativa e de participação, colaborando na construção de uma nova sociedade, justa, solidária, plural e fraterna. O Dia da Pátria, para além de um dia de festa e celebração, vai se tornando também em um dia de consciência política de luta por uma nova ordem nacional e mundial. É um dia de sair às ruas, comemorar, refletir, reivindicar e lutar. 

A partir de 1996, o Grito foi assumido pela CNBB que o aprovou em sua Assembleia Geral, como parte do PRNM (Projeto Rumo ao Novo Milênio - doc. 56 nº 129). A cada ano, se efetiva como uma imensa construção coletiva, antes, durante e após o 7 de setembro.

Mais do que um evento, o Grito é um processo, é uma manifestação popular carregada de simbolismo, que integra pessoas, grupos, entidades, sindicatos, igrejas e movimentos sociais comprometidos com as causas dos excluídos. Ele brota do chão, é ecumênico e vivido na prática das lutas populares por direitos. 

O Grito é um processo de construção coletiva. 

Coordenação Nacional: Cáritas Brasileira (CB); Comunidades Eclesiais de Base (CEBs); Central dos Movimentos Populares (CMP); Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB); Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE); Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP); Comissão Pastoral da Terra (CPT); Juventude Operária Católica (JOC); Jubileu Sul Brasil (JSB); Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB); Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra (MST); Pastoral Afro-Brasileira (PAB); Pastoral Carcerária (PCr); Pastoral da Juventude (PJ); Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP); Pastoral da Mulher Marginalizada (PMM); Pastoral Operária Nacional (PO); Pastoral do Povo de Rua (PPR); Rede Rua (RR); Romaria dos Trabalhadores e das Trabalhadoras (RT); Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM). 

Os materiais impressos (cartaz, jornal, roteiro de celebração, hino do Grito, camisetas) podem ser solicitados à Secretaria Nacional do Grito pelo e-mail: gritonacional@gmail.com  e por mensagem para 11 94761-4232 (com Karina). 

A versão digital dos materiais também está disponível em https://www.gritodosexcluidos.com/materiais

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Ana Valim e Claudia Pereira são da Comunicação do Grito dos Excluídos/as. 

Atualidade

O grito, o caminho e a esperança

O que é o grito? Onde e como nasce?

Como ressoa, como nos impacta, nos mexe?

Pessoal, coletiva, humano e espiritualmente?

Quantos gritos nos marcaram, nos perturbaram, nos moveram?

Nos caminhos percorridos na história da humanidade.

Gritos estrondosos, barulhentos, silenciosos,

amortecidos, sufocados, aprisionados, incompreendidos,

grafados como de loucos, desesperados, iludidos...

Gritos oriundos do peso de ser pisado,

de quem vive da vida do explorado.

Mas de grito em grito, quanto caminho forjado!

Os gritantes se encontram na mesma estrada.

Aqui, acolá, em tempos remotos e recentes,

se juntam, se acolhem, aparam as lágrimas,

curam as dores, partilham sonhos, resistem...

Nas lutas se erguem por vida, liberdade e justiça.

É um espírito perene a percorrer nossa História.

E assim tecem e renovam a tal Esperança.

As dores, geram os gritos, os gritos geram união.

Da união nasce as lutas, das lutas a libertação.

Assim o espírito se faz presente em nosso chão.

Nas lutas dos povos originários, do negro escravizado,

nas revoltas, quilombos, nas lutas da classe operária,

das mulheres, dos movimentos populares...

Das lutas, nascem canções a cantar a liberdade,

nas diversas crenças e linguagens.

Caminhamos, cantamos e seguimos a canção.

E o espírito perene percorre a História,

Renova nossas místicas e espiritualidades.

De grito em grito renovamos a força e a coragem.

Pois tem grito que não fica só no ouvido,

habita a mente, o coração e a alma...

Lembra daquele dos anos oitenta?

“Trabalhador unido, jamais será vencido”

Sebastião Marcial Sobrinho

 

Capa da Edição

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