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Bíblia

Perdoar ou se vingar?

O capítulo 18 do evangelho de Mateus aborda questões fundamentais para uma comunidade: humildade, correção fraterna, reconciliação, cuidado com os mais frágeis. 

Por Geoffrey Boriga

O Evangelho de Mt 18,21-35 revela um Deus que ama e perdoa sem medida. Somos convidados a acolher essa mesma lógica de misericórdia e a levá-la para a nossa vida, aprendendo a perdoar com o mesmo coração generoso com que Deus nos perdoa.

O capítulo 18 de Mateus constitui um discurso de Jesus dedicado à vida da comunidade cristã. Ao longo do capítulo, Mateus aborda questões fundamentais para uma comunidade que procura viver segundo o Evangelho: a humildade, o cuidado pelos mais frágeis, a correção fraterna e a reconciliação.

Neste contexto, percebe-se uma comunidade onde existem conflitos, ofensas e relações fragilizadas, tornando necessária uma atitude de acolhimento, cuidado e restauração dos laços. É neste ambiente comunitário, marcado pelas dificuldades próprias da convivência, que se enquadra a passagem de Mt 18,21-35, como continuação da reflexão de Jesus sobre a forma como os membros da comunidade devem relacionar-se entre si.

Pedro, como porta voz da comunidade, pergunta a Jesus até onde deve chegar o perdão. Ao sugerir “até sete vezes?”, provavelmente pensa já num perdão muito generoso, pois o número sete simboliza a totalidade. Mas Jesus vai muito mais longe: “setenta vezes sete”. Com esta resposta, Jesus deixa claro que o perdão cristão não pode ser limitado nem contado. Deve ser oferecido sempre, sem reservas, porque é assim que Deus age com cada pessoa.

É neste contexto que Jesus conta a parábola do servo devedor. Um funcionário, incapaz de pagar uma dívida gigantesca, dez mil talentos, uma quantia praticamente impossível de imaginar, implora pela misericórdia do seu senhor. Em vez de aplicar a punição prevista, o senhor se compadece dele e perdoa toda a sua dívida. O exagero do valor não é por acaso: serve para mostrar a dimensão da misericórdia de Deus, que é infinitamente maior do que aquilo que qualquer pessoa poderia merecer ou retribuir.

O segundo quadro mostra o contraste entre aquilo que o funcionário recebeu e aquilo que está disposto a oferecer. Depois de ter sido perdoado de uma dívida imensa, ele encontra um companheiro que lhe deve apenas cem denários, uma quantia muito pequena em comparação com a sua própria dívida, e se recusa a perdoá-lo. Os outros companheiros, escandalizados com a sua atitude, contam tudo ao rei. Assim, no terceiro quadro, o rei condena a atitude do funcionário. A parábola coloca lado a lado duas lógicas completamente diferentes: a do senhor, marcada pela misericórdia, e a do funcionário, dominada pela dureza, pela falta de gratidão e pela incapacidade de perdoar.

A mensagem central é clara: Deus oferece um perdão ilimitado e espera que também nós vivamos segundo essa mesma lógica. O perdão que recebemos de Deus não pode ficar apenas numa experiência pessoal; deve transformar o nosso coração e tornar-nos capazes de perdoar aqueles que nos ofendem. Quando permanecemos presos ao ressentimento, à vingança e à lógica da desforra, fechamos o coração à misericórdia que Deus nos oferece. As imagens fortes usadas por Mateus não pretendem apresentar Deus como vingativo, mas sublinhar a urgência de abandonar a lógica da vingança e construir, através do perdão, uma comunidade marcada pelo amor, pela comunhão e pela fraternidade.

Vivemos numa sociedade onde, muitas vezes, perdoar é interpretado como sinal de fraqueza ou de falta de coragem para defender os próprios direitos. O Evangelho apresenta precisamente o contrário: perdoar é um ato de força, liberdade e maturidade, porque exige vencer o orgulho, abandonar o desejo de vingança e escolher um caminho que pode reconstruir as relações. Enquanto a violência e a retaliação geram novos conflitos e sofrimento, a misericórdia cria possibilidades de reconciliação, diálogo e comunhão.

Perdoar, porém, não significa ignorar o mal, aceitar a injustiça ou permanecer indiferente perante quem sofre. O perdão não elimina a responsabilidade nem dispensa a denúncia do que está errado. Significa, antes, não deixar que a ofensa transforme o coração em lugar de ressentimento. Mesmo quando alguém nos magoa, o cristão procura preservar a possibilidade de aproximação, diálogo e mudança. Perdoar é, assim, escolher não fechar definitivamente a porta ao outro, mas acreditar que, apesar da ferida, pode existir um novo começo.

No fundo, o Evangelho coloca diante de nós uma escolha muito concreta: continuar a alimentar as feridas ou começar a curá-las através do perdão. Perdoar não apaga o que aconteceu, mas impede que o mal tenha a última palavra. Talvez não possamos mudar o passado, mas podemos decidir o que fazemos com aquilo que nos feriu. Quando escolhemos perdoar, não estamos a perder, mas a abrir espaço para que Deus transforme a dor em reconciliação, o conflito em encontro e a distância em comunhão. É assim que o perdão começa a mudar não apenas o nosso coração, mas também o mundo à nossa volta.

Geoffrey Boriga, imc, é missionário da Consolata na Coreia do Sul.

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