Pastoral Afro-Brasileira vivendo a Campanha da Fraternidade 2026

09 de abril de 2026

“Eu conheço minhas ovelhas” (Jo 10,14). Assim como o Bom Pastor, a Pastoral Afro é presença na Igreja no meio da população negra.

Por Pastoral Afro-Brasileira de Nova Iguaçu, RJ 

A Pastoral Afro-Brasileira no seu sentido de “Pastoral” é uma ação evangelizadora da Igreja que seguindo os passos do Bom Pastor, Jesus Cristo, - que conhece cada ovelha, sua condição, sua força e sua fraqueza, sobretudo suas necessidades -, quer e deseja como sinal de sua presença, caminhar e acompanhar a vida de cada ovelha na sua individualidade. Nesse caso, a Pastoral Afro-Brasileira é a presença da Igreja no meio da população negra, a Igreja que quer conhecer a história, a cultura, os clamores e as esperanças dessa parte do rebanho. 

A Campanha da Fraternidade deste ano, “Fraternidade e Moradia”, com o lema “Ele veio morar entre nós”, traz uma reflexão e um apelo acerca da realidade de desigualdade que atinge a população negra na sua maioria. A Igreja reconhece a dor e a luta dessa parte do seu rebanho, por isso, a Campanha da Fraternidade não é simplesmente um texto a mais para ser lido e esquecido, mas é o chamado, para que os discípulos e discípulas de Cristo não ignorem a realidade da moradia que é a porta de todos os direitos humanos. No entanto, para a maior parte da população brasileira, principalmente os negros, esse direito ainda permanece um sonho inalcançável. 

Para a Pastoral Afro-Brasileira da diocese de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, a Campanha da Fraternidade deste ano é pertinente, pois a falta de moradia é uma realidade comum entre a população negra, e manifesta as desigualdades sociais, de classe e racial, resultado do racismo estrutural, em que o povo negro historicamente foi sistematicamente excluído em todos os âmbitos. As consequências da exclusão são sentidas por esse povo, principalmente no que se refere à moradia. Por isso, no dia 21 de março de 2026, a Pastoral Afro-Brasileira, motivada pela Campanha da Fraternidade, se reuniu para refletir e conversar sobre o tema “O racismo ambiental e o direito à moradia”. A roda de conversa aconteceu na Paróquia Santa Rita, unindo todos os grupos da Pastoral Afro-Brasileira da diocese. 

Configura-se como racismo ambiental quando a população marginalizada é excluída no processo de definição de políticas públicas e de serviços públicos, fazendo com que ela seja impactada de forma desproporcional pelos desastres ambientais. Diante do racismo ambiental, as comunidades pobres sofrem por falta de recursos e serviços enquanto as populações mais privilegiadas usufruem de todos os serviços e recursos para proteção contra desastres ambientais. Os exemplos de racismo ambiental são, quando se permite a construção de lixões e aterros sanitários próximos às comunidades de baixa renda e majoritariamente compostas por pessoas negras e indígenas, na falta de acesso à água potável, saneamento básico, transporte público em comunidades rurais e periféricas, entre outros casos. Durante a conversa, os integrantes da Pastoral Afro relataram como são afetados em suas áreas por falta de políticas públicas, surgiram relatos de pessoas que para elas a chuva é uma preocupação constante, para essas pessoas a chuva nunca é bênção, mas preocupação, pois sempre quando chove, há enchentes e perda de pertences.

A Campanha da Fraternidade traz o fato de que a moradia tem se tornado cada vez mais objeto de especulação imobiliária, que faz com que os ricos tenham acesso à moradia digna e os pobres cada vez mais excluídos desse direito fundamental. A Campanha ainda ressalta um elemento fundamental para que ocorra a moradia, isto é, a terra. Ao falar sobre esse assunto, durante a roda de conversa recordou-se a Lei de Terra de 1850 (Lei n.601) que foi criada justamente para impedir o acesso a terra por ex-escravizados, estabeleceu que a aquisição de terras só poderia ocorrer através da compra e não mais por sesmarias ou ocupação. Essa lei consolidou a propriedade privada e o latifúndio. Ainda foi lembrada a falta de políticas reparatórias depois daquilo que se chamou “abolição”, deixando os negros sem saber para onde ir, e o resultado é o que se revela hoje, em mais de 12 mil favelas espalhadas pelo Brasil, as quais são habitadas majoritariamente por negros que formam mais de 75% dos favelados, e pessoas em situação de rua - 70% são negras. 

Não são meros números, são pessoas que gritam por justiça e por igualdade. Mas isso só vai acontecer quando todos, como Igreja, nos reconhecermos como irmãs e irmãos, e nos comprometermos com a luta pelo fim do racismo que gera a desigualdade social. A Pastoral Afro-Brasileira na diocese, na vivência da Campanha da Fraternidade 2026, continua levantando a voz, conscientizando a Igreja e toda a sociedade sobre a existência da desigualdade histórica que acaba com a vida do povo negro e todos os marginalizados, mas também se compromete a trabalhar além dos muros da Igreja para o fim do racismo e a promoção de políticas reparatórias a favor da população negra.

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