O trem e o desemprego
Rotina nos vagões dos trens intermunicipais de São Paulo revela economia informal.
Desde os tempos mais remotos, na história da humanidade, o mercado é campo de guerra. Oferta e demanda travam o eterno duelo da troca entre coisas e pessoas. Com dinheiro ou sem ele, o duelo se arrasta, lento e longo, recheado de sorrisos disfarçados e de concessões que sobem e descem. Gestos, palavras e olhares, em meio ao confronto, se convertem em golpes afiados. Com razão escreveu o velho Marx que, nesse jogo de manhas e manobras, "as coisas se comportam como pessoas, e estas como coisas". De rua em rua, de esquina em esquina, de balcão em balcão, mercadorias ganham vida própria.
Esse duelo, todavia, se revela de forma muito mais viva e singular nos trens da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), em São Paulo, como por exemplo no trajeto entre as estações da Barra Funda e Jundiaí, ida e volta. Primeiro, porque representa uma das faces mais nuas, cruas e tragicômicas do desemprego. De vagão em vagão, torna-se feroz e ruidosa a competição entre os inúmeros vendedores ambulantes, a ponto de abafar o martelar das rodas sobre os trilhos, ferro sobre aço.
Produtos como água mineral, coca-cola, fanta, guaraná, refrigerantes, cerveja, bebida bem geladinha; fones de ouvido, carregador e capas de celular; cintos e carteiras, barbeador e gillette, guarda-chuvas e chaveiros; amendoim doce e salgado, batata frita, pipoca, salgadinhos, doces e balas coloridas; creme dental, escovas e pentes; bolas de plástico e animais de pelúcia para as crianças - tudo isso é oferecido aos berros pelos vagões e no meio da multidão comprimida. Gritos que logram superar os alto falantes oficiais e seus avisos sobre a proibição do comércio ambulante no interior dos trens e estações.
Mais vende e mais lucra quem é capaz de gritar com maior força. Não raro, produtos idênticos se batem por espaço e gente, na tentativa de atrair os eventuais compradores. A disputa cresce e se acirra. "Um pacote de fralda é oito, dois é quinze"! "Você leva meia dúzia por trinta reais"! "Vinte reais a peça, mais barato que na loja"! "Olha aqui, cinco barras de chocolate por apenas quinze reais, lá fora você paga mais caro"! "Só seis por unidade, em qualquer lugar vai pagar o dobro"! "Seis pares de meias por quinze reais, só aqui"! "E agora, pra acabar, um real o saquinho de chiclete, com cinco reais leva seis"! "Agora, os últimos dois por um real"!
Não viaja com dinheiro? Sem problema, aceito cartão, crédito e débito. Não tem cartão, também aceito pix. Facilito sua compra. O produto vai até você, nem precisa levantar do banco. Sem fila no caixa, sem burocracia, tudo na hora, tudo rapidinho. Você economiza grana e tempo. Faça uma surpresa para a esposa, pro marido e as crianças, pra toda família. E tudo bem baratinho, aproveite!
Alfredo J. Gonçalves, cs, é assessor do Serviço de Proteção ao Migrante (SPM), São Paulo, SP.